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Bilhetes poéticos

Com uma caligrafia caprichada e uma letra miúda, o poeta Manoel de Barros prepara à mão um novo livro que promete ser sua obra-prima, coroando os quase 93 anos de tranquila trajetória

04 de novembro de 2009 | 0h 00
Ubiratan Brasil - O Estadao de S.Paulo

A vitalidade do poeta Manoel de Barros é invejável. Próximo dos 93 anos (completa em dezembro) e apesar das dificuldades auditivas e de visão, ele escreve mais um livro. O teor ainda é um mistério mas, segundo sua primeira e mais fiel leitora, a mulher Stella, trata-se de sua obra-prima. "Manoel escreve à mão, como de hábito, com uma caligrafia muito particular", comenta Pascoal Soto, diretor editorial do Grupo Leya do Brasil, que contratou a obra do poeta mato-grossense - serão 17 títulos e esse inédito, a partir do próximo ano. "Quando recebo correspondência do Manoel, minha pulsação aumenta: são os originais de uma poesia inigualável."  


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De fato, como há muito trabalha na edição da obra do poeta, Soto acumulou um verdadeiro tesouro de papéis rabiscados com uma letra miúda e linhas caprichadas. Uma linguagem artesanalmente construída, sem se ater a convenções gramaticais ou sociais, mas sempre em busca da simplicidade. Fazendeiro aposentado, Manoel de Barros tornou-se, com o passar dos anos, um cultor da palavra - leitor dos sermões do padre Vieira, hábito que o ensinou, ainda jovem, a admirar a formação e utilização das palavras, ele se habituou a consultar dicionários etimológicos quando criava seus versos simples mas recheado de encanto e fantasia (leia ao lado).

O trabalho, atualmente, é mais moroso, visto o prejuízo físico provocado pela idade. Mas Manoel continua com a mente livre como a de uma criança, como mostra na seguinte entrevista, também concedida via bilhete.

O Manoel de Barros que surge da poesia não é o mesmo daquele pessoa física, em carne e osso. Quem é o verdadeiro Manoel de Barros?

Sim, somos dois. Um é biológico, outro é letral. Ambos somos verdadeiros. Um é de sangue. Outro é de palavras. O de sangue é comum: come, bebe água e até quebra copos. O ser letral gosta de fazer imagens pra confundir as palavras. E gosta de usar palavras pra destroncar as imagens. Tipo assim: eu vi um passarinho pousado no muro da tarde. As palavras servem para me enganar e para enganar os outros. Quem escreve sobre si mesmo procura sua própria glória, disse Cristo. Eu procuro. Não sei me pular.

O sentimento de pertencer a um mundo à parte faz bem ou mal aos escritores?

A mim só faz bem. Mas eu não fico em mundo à parte. Sou muito egoísta e narcisista. Meu mundo sou eu em carne e letras. Sou o que produzo e o que não consigo produzir. Sofro um pouco nessa parte de não poder produzir.

O senhor ainda considera seu primeiro livro, Poemas Concebidos Sem Pecado, o seu melhor? Por quê?

Penso que por ser o meu primogênito informei algum dia que o meu primeiro livro é o meu melhor livro. Acho que foi uma tirada de amor. Gosto do meu primeiro livro por que ele sabe mais da minha infância do que os outros.

A palavra está acima de tudo?

Eu tenho pela palavra a mesma fascinação que a lesma tem pelas pedras. E que os lagartos têm pela solidão das pedras.

As palavras são perigosas?

Pra mim todas são amáveis. Podem me trair, mas isso é do nosso mundo. A gente precisa se vigiar ao escrever. Não podemos, ao escrever, abandonar o canto, a harmonia letral, etc. Não podemos desprezar os gorjeios das palavras.

O senhor escreveu certa vez: "O artista é um erro da natureza." Existem erros perfeitos?

Os gênios são erros perfeitos da natureza. Botei como erro porque os outros somos nós.

O senhor sempre gostou de escrever à mão. A escrita é também aquilo com que se escreve?

Eu sou minha imaginação e meu lápis. Quando o lápis acerta um erro, ele percebe e grita por uma borracha. Visto que eu seja atrasado por não usar computador.

O escritor português António Lobo Antunes disse que sente dificuldade cada vez para escrever, pois ele teme desapontar os leitores que acreditam nele. O mesmo se passa com o senhor?

Acho normal que a gente queira aparecer como é.


Coletânea

Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.

No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal: Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro.

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos.

Poesia é voar fora da asa.

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.

Quando o mundo abandonar o meu olho.

Quando o meu olho furado de beleza for esquecido pelo mundo.

Que hei de fazer.