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Boxeador da palavra

Convidado da Flip, James Ellroy descreve o submundo com frases impactantes

15 de junho de 2011 | 0h 00
Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo

James Ellroy golpeia com as palavras. Ler seus livros é como entrar no ringue: ele ocupa bem o quadrilátero, "jabeia" com frases curtas e, quando você acredita ter assimilado os golpes, Ellroy vem com um cruzado nocauteador ao descrever alguma sordidez. Sim, sua literatura é essencialmente formada por perversões e baixarias - nada além, no entanto, do que se lê diariamente nos jornais.

'Meu estilo de escrever é deliberadamente provocador', diz o escritor - DIvulgação
DIvulgação
'Meu estilo de escrever é deliberadamente provocador', diz o escritor

Esse escritor americano de 63 anos, bem-vestido, muito falante, vegetariano, será uma das atrações da próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que ocorre entre 6 e 10 de julho na cidade fluminense. O belo porte atual, porém, não reflete os dramas que marcaram sua existência. Em 1958, quando Ellroy tinha apenas 10 anos, sua mãe foi assassinada e o criminoso jamais foi encontrado. Por conta disso, ele caiu na delinquência, experimentando álcool, drogas e a prisão. Foi internado em 1975 e, quando estava à beira da morte, buscou a redenção na escrita, tornando-se, em pouco tempo, um dos principais nomes da literatura policial.

"Na verdade, o principal", frisa ele, em conversa por telefone com o Estado desde Kansas City, típica cidade do meio-oeste americano para onde se mudou há alguns anos. "Meus livros não são sobre crimes, mas sobre a história americana em que a política está intimamente ligada ao universo do crime."

Ao contrário do que pode parecer, Ellroy não é presunçoso - sua obra busca, por meio da ficção, retratar e criticar fatos marcantes que explicam a situação atual. É o caso de Sangue Errante, que a editora Record lança nos próximos dias. Trata-se de um tijolaço (são mais de 900 páginas) que encerra uma trilogia iniciada com Tabloide Americano (1995), eleito o livro do ano pela revista Time, e continuada por 6 Mil em Espécie (2001). Juntos, eles formam a Underworld USA Trilogy, retrato implacável da história americana entre 1958 e 1972. Ellroy conta que sua motivação foi despertada ao ler Libra, de Don DeLillo, que especula sobre Lee Oswald, assassino do presidente John Kennedy, em 1963.

"Logo que terminei Tabloide, eu sabia que seria uma trilogia", conta o escritor, cujas frases telegráficas impressionam pela precisão do relato e pela velocidade que impõem à narrativa. Nos textos de Ellroy, o lirismo é refreado em benefício da exatidão. Tabloide começa em 1958 e termina com a morte de Kennedy. Já 6 Mil avança até 1968, finalizando com as mortes de outro Kennedy, Robert, e de Martin Luther King. "E Sangue Errante, como não poderia deixar de ser, acaba com outro desaparecimento, agora de Edgar G. Hoover, o então chefão do FBI. Você pode perceber que sempre há algum crime nos bastidores da política americana. Volto a dizer que a América nunca foi inocente."

Como os romances têm uma profusão de personagens reais, Ellroy é auxiliado sempre por pesquisadores, que checam dados e fatos. Em seguida, como bem diz, pincela com ficção, extrapolando. Um detalhe: em sua casa não tem computador. "Também não leio jornais, nem vou ao cinema. E, quando escrevo, as janelas vivem fechadas, me trazendo o escuro confortador."

Ellroy fala pausadamente, às vezes prolongando algumas sílabas, com a voz variando na tonalidade, semelhante a um professor ou mesmo um pregador religioso. E, apesar do tom ameno, a franqueza não tem limites. "Quando escrevi Sangue Errante, vivia alcoolizado e drogado."

Na verdade, tal estado de espírito o dominava durante o período retratado na trilogia. Questionado sobre a influência de suas lembranças na escrita dos romances, Ellroy foi taxativo: "Nenhuma. Lembro-me de alguns eventos, mas não dava a mínima. Tudo o que eu queria era beber, usar drogas, correr atrás de mulheres, que não me davam bola". Alguma orientação política? "Também nenhuma. Não militei na esquerda, não protestei contra as guerras. Gostava de dormir no parque e de ler, li muito."

A, digamos, boa vida foi produtiva, de alguma forma. Ellroy conta ter se alimentado de ótimas leituras, fermentando seu conhecimento, criando seu espírito de escritor. Isso explica a visão muito pessoal que apresenta dos Estados Unidos em Sangue Errante - em meio aos conflitos raciais e manifestações antibélicas que marcaram o fim da década de 1960 e início de 70, o escritor destaca o cinismo do presidente Richard Nixon, a megalomania do milionário Howard Hughes e a demência pronunciada de Hoover, comandante do FBI, tratado a todo momento como "bichona velha".

"Meu estilo de escrever é deliberadamente provocador", acredita ele que, em outras épocas, se autodenominou o "Tolstoi do romance policial". De fato, suas frases - que habitualmente não contêm mais que cinco palavras - trazem um gingado peculiar, algo como galhofas ditas com uma sonoridade elaborada. O resultado surpreende, sempre.

Ellroy - autor também do chamado Quarteto de Los Angeles, que inclui Dália Negra (1987) e Los Angeles - Cidade Proibida (1990) - reconhece as contradições de seu livro. "Sangue Errante é repleto de referências contemporâneas, apesar de eu não ter tido essa intenção. Na verdade, foi uma imersão, pois, enquanto escrevia, eu realmente estava naquele período."

"RUA CALMA. SEM TRÁFEGO DE PEDESTRES. O CAMINHÃO DE LEITE ARFOU. O RADIADOR ESTOUROU. UMA NUVEM DE VAPOR SIBILOU E SE ESPALHOU ATÉ LONGE. OS GUARDAS TOSSIRAM E ENXUGARAM OS OLHOS. TRÊS HOMENS SAÍRAM DE UM FORD 62 PARADO MAIS ATRÁS. USAVAM MÁSCARAS E LUVAS. CALÇAVAM SAPATOS COM SOLAS DE BORRACHA. USAVAM CINTOS CARREGANDO BOMBAS DE GÁS EM BOLSAS PEQUENAS. USAVAM BLUSAS DE MANGA COMPRIDA ABOTOADAS.

A COR DA PELE ESTAVA OCULTA. O VAPOR OS COBRIA. ANDARAM E SACARAM ARMAS COM SILENCIADORES. OS GUARDAS TOSSIRAM.

ISSO FORNECEU COBERTURA SONORA."

Trecho de Sangue Errante


SANGUE ERRANTE
Autor: James Ellroy
Tradução: Ivanir Alves Calado
Editora: Record
(960 páginas, R$ 77,90)


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