Braço direito dos Kirchners renuncia
Uma semana após derrota no Senado, Fernández deixa chefia de gabinete, cargo que ocupava desde 2003
A presidente argentina, Cristina Kirchner, começou a sofrer ontem os efeitos da derrota no Senado, na semana passada, de um projeto de lei de seu governo, com a renúncia do influente chefe de gabinete Alberto Fernández, considerado seu braço direito na área política.
A saída de Fernández, que ocupava o cargo desde maio de 2003, após a posse do então presidente Néstor Kirchner, representa uma grande perda para o casal presidencial. Além de lidar com a área política, Fernández intermediava as brigas entre Cristina e Néstor, usando sua diplomacia.
Fernández foi substituído por Sérgio Massa, de 36 anos, ex-diretor da Previdência e prefeito do município de Tigre. Acredita-se que Massa tenha o jogo de cintura necessário para chefiar o gabinete de ministros. Os Kirchners consideram Massa um "garoto prodígio" da nova geração de políticos.
O analista Gustavo Martínez Pandiani, da Universidade de Salvador, ilustrou a saída de Fernández como a "remoção do tampão de uma garrafa, o que permitirá a saída de outros integrantes do governo". A expectativa é que nos próximos dias mais funcionários renunciem por causa da derrota de Cristina no Senado, que rejeitou no dia 16 o polêmico projeto de lei de aumento de impostos sobre exportações agrícolas.
LINHA DURA
A saída de Fernández fortalece seu maior rival dentro do gabinete, o poderoso ministro de Planejamento e Obras, Julio de Vido, acusado de envolvimento em diversos casos de corrupção. De Vido, que acompanha os Kirchners desde a década de 80, é o expoente da linha dura do governo, enquanto Fernández representava a ala mais aberta ao diálogo.
Isso indica que outra figura polêmica, o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, aliado de De Vido, continuará no cargo. Ele é responsabilizado pela manipulação do índice de inflação e ficou famoso por realizar reuniões com empresários com um revólver em cima da mesa.
AGRICULTURA
Cristina também removeu o secretário de Agricultura, Javier de Urquiza. Seu substituto é Carlos Cheppi, um técnico com boas relações com pequenos e médios produtores agrícolas. Apesar disso, nenhum líder ruralista foi convidado para assistir à posse de Cheppi, ocorrida ontem.
Fernández e Urquiza haviam ficado desgastados pela crise de quatro meses entre o setor ruralista e o governo.
O conflito com os ruralistas também levou à queda do ministro da Economia Martín Lousteau, em abril, e provocou divisões no governista Partido Justicialista (peronista), assim como a rebeldia do vice-presidente Julio Cobos - que passou a dialogar com a oposição e deu seu voto de minerva contra o governo no Senado na semana passada.
Fernández tentou equilibrar os setores em confronto dentro do governo dos Kirchners - os radicais (que acompanham Kirchner desde que ele era governador da Província de Santa Cruz, nos anos 90) e o lado mais moderado (ao qual ele pertence), que começou a apoiar o casal em 2003.
Fernández estava desgastado pelos vários problemas que teve de enfrentar nos últimos sete meses, entre eles o aumento da inflação, as manifestações contra o governo e a rebelião fiscal ruralista.
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