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Brasil quis monitorar Jango na Argentina

Filho de ex-presidente mostra documento de colaboração entre regimes militares

20 de dezembro de 2013 | 2h 10
LEONENCIO NOSSA / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

A Comissão Nacional da Verdade apresentou ontem documento que revela a preocupação da ditadura no Brasil de apressar uma parceria com o governo militar da Argentina, logo após o golpe no país vizinho, para monitorar o ex-presidente João Goulart e outros 93 brasileiros asilados ou possivelmente escondidos em território argentino. O documento foi produzido no início de maio de 1976, menos de dois meses após o movimento que derrubou a então presidente Isabel Perón.

Produzido pelo III Exército, com sede em Porto Alegre, o documento de caráter sigiloso ressalta que João Goulart poderia deixar a Argentina após o golpe de 24 de março daquele ano. Os brasileiros escrevem que precisavam "obter através da cooperação das forças de segurança argentinas a confirmação das presenças" dos citados na lista. Eles escrevem ainda que pediriam aos argentinos fotografias recentes, documentos de identidade e cópias de depoimentos em casos de prisões.

O material foi entregue à comissão por João Vicente Goulart, filho do ex-presidente. João Vicente observou que, tempos depois da produção do documento, um escritório de Jango na Argentina foi invadido pela polícia local. Não há registro se o pedido foi formalizado aos argentinos e nem se foi respondido. João Vicente observou que o "subversivo" Goulart, como o pai é citado no texto, não passava mais que duas noites numa mesma residência, com receio de ser vítima dos militares dos dois países.

Rosa Cardoso, representante do grupo de trabalho da comissão que investiga as relações entre as ditaduras do Cone Sul, ressaltou que a cooperação entre o regime do Brasil e forças de repressão da Argentina existia antes do golpe contra Isabel Perón. O documento entregue pelo filho de Goulart, segundo ela, reforça a tese de que a ditadura brasileira logo buscou formalizar uma cooperação com o regime argentino. "Já havia um contato com esse novo governo desde as primeiras horas."

Papéis. Em conversa com jornalistas, Rosa manifestou interesse em aprofundar a análise da ajuda dos militares brasileiros aos argentinos. Ela ressaltou, porém, que esse interesse esbarra na falta de documentos. Pesquisadores da comissão foram a Buenos Aires para obter informações, mas não conseguiram avançar nas investigações.

"A história da Argentina se reconstruiu a partir de depoimentos de vítimas. Documentos não estão liberados para esclarecermos essa conexão", observou Rosa. A falta de documentos é um entrave em especial na história dos últimos dias de Jango e da Operação Condor, nome dado por pesquisadores às relações entre as ditaduras latino-americanas.

Rosa defendeu que o relatório sobre as causas da morte do ex-presidente seja agilizado. Pesquisadores da área, porém, avaliam que a comissão pouco avançará em relação a grupos montados no Congresso em 2000 para investigar o tema.

Para dificultar os trabalhos, os principais especialistas em Condor, o historiador Jair Krischke e o jornalista Luiz Cláudio Cunha, foram alijados das investigações. O último foi consultor do grupo, mas foi afastado por criticar publicamente o ministro da Defesa, Celso Amorim, os comandos do Exército e da Marina e até membros da comissão por não contribuírem com as pesquisas. Rosa foi a única integrante do grupo a defender a permanência de Cunha.

Krischke, por sua vez, preside em Porto Alegre o Movimento de Justiça e Direitos Humanos, que atua de forma paralela nos esclarecimentos sobre as ditaduras no Cone Sul. Ele apontou recentemente que o Brasil deu dinheiro para o general Augusto Pinochet, que derrubou o presidente chileno Salvador Allende em 1973.

Nas últimas semanas, membros da comissão voltaram a avisar ao Planalto que a falta de empenho dos comandantes das Forças Armadas em abrir os arquivos dos centros de inteligência tornará frustrante o resultado das investigações. Instalada em maio de 2012, a comissão percorreu o País ouvindo vítimas da ditadura e famílias de mortos, mas não conseguiu avançar na questão dos assassinatos. Os militares da reserva que foram ouvidos alegaram que respeitavam uma hierarquia e não tinham recebido ordens de seus superiores para dar informações.




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