Cala a boca já morreu
Série de shows reúne canções censuradas pela ditadura militar no Brasil
Quando o assunto é censura à música popular no Brasil no período da ditadura militar, a discussão vai longe. Existe até um bom site especializado no tema (www.censuramusical.com.br), com reproduções de documentos oficiais. O repertório de vetos é tão vasto quando as risíveis justificativas. O produtor Marcus Fernando mergulhou nesses e outros arquivos nacionais, levantando canções famosas e raras, além de episódios bizarros que as envolvem, para realizar a série Cale-se - a Censura Musical, com quatro shows no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo e o do Rio.
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O ciclo paulistano começa hoje com a primeira parte de A MPB Calada, com Fátima Guedes e Zé Luiz Mazziotti interpretando canções com letras de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, João Bosco e Aldir Blanc, entre outros, que foram vítimas da tesoura oficial.
Sempre reunindo duplas, a série continua nas próximas terças-feiras, com a segunda parte de A MPB Calada (com Verônica Ferriani e Zé Renato), canções da linha chamada "brega" com Inez Viana e Alfredo Del-Penho e se encerra com temas do pop-rock nas vozes de Silvia Machete e Eduardo Dussek (veja programação abaixo). No roteiro, Gonzaguinha, Taiguara, Jards Macalé, Belchior, Benito di Paula, Rita Lee, Raul Seixas, Léo Jaime e outros.
A série se concentra entre 1964 e 1987, a partir do golpe militar e mais intensamente depois do famigerado Ato Institucional n.º 5 (1968), quando o regime militar recrudesceu no País. O repertório tem desde Tamandaré (a primeira canção de Chico Buarque censurada), até Vaca Profana, de Caetano Veloso, mas inclui canções lançadas em períodos anteriores ao golpe.
É o caso de Samba do Arnesto (Adoniran Barbosa) e de Chico Brito (Wilson Batista). "Quando Paulinho da Viola foi regravar Chico Brito, a música foi vetada. Só conseguiu gravar um tempo depois", lembra Marcus. Adoniran foi censurado por causa do linguajar, que não incluía palavrão, mas porque "falava errado".
Além das figuras da elite da MPB mais visadas pelo regime militar, como Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo e Chico Buarque (que no auge da perseguição acabou usando o pseudônimo de Julinho da Adelaide para driblar os censores), os compositores da linha mais popular também tiveram sua cota de prejuízo, como lembrou Paulo César de Araújo no livro Eu Não Sou Cachorro Não, uma das fontes de pesquisa do curador Marcus Fernando.
"Paulo César trouxe uma luz sobre esse aspecto, porque muita gente não lembra que esses artistas mais populares também foram censurados. Outros relacionam a censura a eles no aspecto da "moral e dos bons costumes". Tem músicas que vão mais para o lado sensual, tratando de assuntos polêmicos como é o caso de Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula), de Odair José, mas há outras contestadoras também", diz Marcus.
Tortura e pesadelo
Waldick Soriano teve uma de suas mais célebres canções proibida simplesmente por usar a palavra tortura no título (Tortura de Amor). "Uma música chamada 13 Anos, de Luiz Ayrão, que depois mudou o título para O Divórcio, para poder passar, é uma das mais contestadoras do repertório censurado", aponta Marcus. "Ele compôs essa música quando o golpe fez 13 anos, dizendo "13 anos eu te aturo, não aguento mais". Óbvio que ele tratava aquilo como se fosse um homem dizendo para uma mulher, como Chico fez em Apesar de Você, mas era muito mais descarado."
A turma do rock também sentiu o peso obscurantista, culminando no absurdo caso da banda Blitz, que teve duas faixas de seu primeiro LP (Ela Quer Morar Comigo na Lua e Cruel, Cruel Esquizofrênico Blues) riscadas com prego no vinil, de tal maneira que era impossível de serem tocadas.
Algumas capas de discos também foram proibidas, como Calabar (Chico Buarque), Índia (Gal Costa) e Joia (Caetano Veloso). Em rápidas entradas nos shows Marcus contextualiza algumas canções e lembra episódios pitorescos, como o caso de Paulo César Pinheiro que, para surpresa geral, não sofreu censura por causa da explícita letra de Pesadelo (parceria com Maurício Tapajós), que dizia "você corta um verso, eu escrevo outro", entre outras provocações.
"Ele conta que escreveu essa letra de tão saco cheio que estava de explicar outras. Achava que nem o título ia passar pela censura. Pesadelo, imagina. Mas ele usou da artimanha de colocar a letra na pasta de um disco de Agnaldo Timóteo. Isso só comprova a burrice que era a censura." Essa passou e o MPB-4 gravou.
PROGRAMAÇÃO
A MPB Calada - Parte 1
Hoje, com Fátima Guedes e Zé Luiz Mazziotti interpretando canções de Chico Buarque, Caetano Veloso, João Bosco e Aldir Blanc, Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, entre outros.
A MPB Calada - Parte 2
Dia 14, Verônica Ferriani e Zé Renato cantam Gonzaguinha, Taiguara, Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré, Belchior, Ednardo.
Censurando o Popular
Dia 21, músicas de Odair José, Fernando Mendes, Waldick Soriano, Luiz Ayrão, Benito di Paula, entre outros, por Inez Viana e Alfredo Del-Penho.
O Pop-rock Proibido
Dia 28, Silvia Machete e Eduardo Dussek unem as voz em canções de Rita Lee, Cazuza, Raul Seixas, Léo Jaime, Pepeu Gomes, Evandro Mesquita e do próprio Dussek, entre outros.
CALE-SE - A CENSURA MUSICAL - CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, centro, tels. 11 3113-3651 e 3113-3652. Terças, às 13 h e 19h30. R$ 6 e R$ 3. Até 28/6.
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