Ir para o conteúdo
ir para o conteúdo
 • 
Você está em Notícias >
Início do conteúdo

Câmera na mão e música na cabeça

Com conteúdo diferenciado, chega à internet um projeto de produção de clipes musicais que une cinema e interatividade

31 de dezembro de 1969 | 20h 00
Flávia Guerra - O Estadao de S.Paulo

Uma câmera na mão. E uma música na cabeça. Clichê à parte, era exatamente isso que os criadores do Música de Bolso tinham quando decidiram pôr em prática um projeto que agora chega a sua reta final. Hoje, a equipe lança oficialmente essa empreitada que une música, cinema e tecnologia. Mais que isso, une fãs e artistas da maneira mais democrática possível: a internet.

O Música de Bolso nada mais é que um site. Ou seria um portal, ou seria um novo canal de comunicação e entretenimento? Enfim, o projeto consiste em um canal que vai exibir clipes musicais que bem poderiam ser chamados de ''''pequenos shows''''. A festa de lançamento, hoje, no Bar Chopetta, com direito à exibição dos clipes, é só para convidados, mas o acesso ao site é gratuito e ilimitado. Você pode perguntar: mas isso o youtube já não faz? Sim e não. O youtube dá acesso a clipes que já existem e são postados por fãs e até mesmo produtores. A diferença é que o Música de Bolso tem conteúdo exclusivo. Ou seja, clipes que artistas como Pato Fu, Mariana Aydar, Thalma de Freitas, Arnaldo Antunes, entre outros, nunca fizeram nem fariam se não fosse a pedido da equipe do projeto.

Por exemplo? Mariana Aydar, na sexta-feira, cantava em um belo jardim que nem de longe lembrava a caótica São Paulo, cidade onde a cantora mora. Mais tarde, Mariana foi parar no Playcenter e improvisou uma canção no alto do Chapéu Mexicano ao lado do namorado e músico Duani. ''''Adorei! Claro que em um momento a gente estava mais se divertindo do que cantando, porque haja concentração para soltar a voz, sem desafinar, num brinquedo daqueles'''', comentou Mariana, que conheceu Gomes quando participou do curta Alice, dirigido por ele. ''''O Rafael (Gomes) sempre me falava que tinha uma idéia e queria que eu participasse. Eu sempre dizia que era só chamar. Até que acabou rolando. É uma forma de mostrar meu trabalho, estar mais perto de quem gosta da minha música e, ao mesmo tempo, dessacralizar esse lance de ser artista.'''' É ótimo poder mostrar para as pessoas que nosso trabalho é como qualquer outro. É um trabalho de criação, mas que não tem nada de glamour ou algo assim.''''

De fato, os convidados estão adorando o projeto. Thalma de Freitas também aprovou a idéia e até chamou o rapper Max B.O. para improvisar uma canção na Praça do Pôr-do-Sol, na Vila Madalena. O pessoal do Pato Fu se juntou numa loja de brinquedos de Belo Horizonte para cantar uma composição nunca antes apresentada. Prato cheio para todo fã de boa música, não? E oportunidade para desmitificar a produção musical também. Os artistas adoram a idéia. A equipe do Música de Bolso mais ainda.

Pela equipe entenda-se Rafael Gomes, Tati Fujimori, Daniel Ribeiro e Marcus Presto. Gomes, Tati e Ribeiro são jovens diretores de cinema que sabem muito bem usar as mais novas ferramentas tecnológicas para fazer o que mais gostam: filmar. Presto é jornalista e atua como uma espécie de curador do Música de Bolso. Parceria perfeita para a ''''era das sinergias'''' entre as áreas. Aliás, quando se fala do poder que a internet tem, Gomes, apesar da pouca idade, entende muito bem. Ele é um dos três diretores do maior fenômeno de acesso que o cinema brasileiro já teve na net: Tapa na Pantera. Se você nunca ouviu falar é porque definitivamente esteve fora do ar no último ano. A trajetória do curta-metragem, que trazia a atriz Maria Alice Vergueiro no papel de uma usuária feliz de maconha, diz muito sobre a origem do Música de Bolso. ''''Vimos o absurdo que virou o Tapa na Pantera e começamos a perceber o poder que a internet tem. Nem fomos nós que colocamos o curta no youtube e veja só o que virou. Foi então que passamos a ter idéias de outros projetos só para a internet'''', conta Gomes.

O absurdo que virou o Tapa na Pantera? Mais de 10 milhões de acessos oficiais no youtube até hoje. Sem contar as correntes de e-mails, DVDs gravados e passados de mão em mão e exibições em festivais de cinema no Brasil e no exterior. A ironia é que de fato os diretores (Gomes, Esmir Filho e Mariana Bastos) nunca esperavam tamanho sucesso de público. ''''Rodamos o Tapa em 2005 e começamos a mostrar para os amigos. Em 2006, começamos a mandar para as comissões de seleção dos festivais. Dez dias depois disso, o curta estava no youtube. É óbvio que alguém viu, digitalizou e postou. E virou fenômeno'''', relembra Gomes.

Impossível passar por esse furacão incólume. E Gomes começou a formatar o Música de Bolso. ''''Adoro música e sempre quis fazer algo na área, mas acabava mesmo me envolvendo com os curtas e projetos da Ioiô. Até que começamos a colocar o Música de Bolso em prática'''', conta ele, que é diretor associado da Ioiô Filmes (produtora, entre outros, de Tapa na Pantera e de Alguma Coisa assim, curta de Esmir Filho que foi premiado em Cannes 2006), que tem à frente Simoni di Mendonça e Lorenzo Giunta.

Pode parecer pouco, mas em tempos em que a música está em todos os lugares, de ringtones de celulares ao youtube, passando por iPods, blogs e pelo Orkut, um portal de livre acesso a conteúdo diferenciado do que costumávamos ver na MTV é um feito e tanto. ''''Hoje em dia, não há mais isso de esperar um clipe do artista favorito passar na MTV ou na TV aberta para assistir. A gente vai direto no site do povo, procura no google, no youtube, e vê'''', comenta Tati. Para a jovem diretora, que acabou de se formar em cinema e nunca tinha trabalhado com música, a idéia começou a tomar corpo depois de ver um show do Kings of Convenience na praia. ''''Eles estavam ali tocando em plena areia para todo mundo! Aquilo teria virado um belo clipe. Esse projeto de filmar artistas em momentos despojados me fez lembrar um clipe dos Mutantes em que tocam num jardim. Pensei: Por que a gente não pode fazer isso hoje? E foi assim que começamos a pensar nas oportunidades de filmar coisas fora do comum, sem a produção toda que um clipe, por menor que seja, exige'''', conta Mariana.

E a produção, no caso do Música de Bolso, é de fato completamente despojada. Além do cuidado técnico com a captação do som (a cargo de Geraldo Ribeiro), não há iluminação artificial, nem cortes, nem maneirismos da linguagem videoclipe. Muito pelo contrário. O inusitado aqui fica por conta da criatividade dos artistas. China, do Mombojó, por exemplo, escolheu o banheiro como locação de um de seus clipes. Mais que o cenário, também escolheu um instrumento que nunca toca em público: o violão. ''''São esses momentos especiais que vamos colocar no ar. O China, além de tudo, cantou duas músicas que ele disse que nunca vai gravar. Uma em homenagem ao filho dele. Há releituras, arranjos novos, músicas inéditas, enfim, tudo menos o óbvio.''''

De Kings of Convenience para o Pato Fu correram meses. Até que a idéia finalmente virou realidade. A produção é mínima e o cachê, por enquanto, é a diversão de participar de um projeto que tem tudo para se tornar tendência. ''''Os custos são quase zero, porque a câmera, uma HDV, emprestamos da Ioiô. Fazemos os clipes no nosso tempo livre. E os músicos entram como parceiros no projeto'''', comenta Gomes. ''''A ponte com os músicos está sendo feita pelo Marcos Presto, que tem know-how para isso. Está tudo equilibrado'''', completa o diretor.

Por enquanto, o clima é de cooperativa. Mas os diretores não escondem que adorariam fazer disso um trabalho fixo. ''''Seria lindo. Tanto pelo lado de abrir este canal novo de comunicação entre músicos quanto por poder filmar com liberdade e com a criação dos artistas também'''', comenta Tati. Sonho mesmo é transformar a produção toda em DVD. Quem sabe em um CD? E a idéia de chamar músicos internacionais para participar? ''''Ah! Isso já está nos nossos planos. Estamos já tocando isso. Quem sabe já não inauguramos a seção internacional do site?''''

O QUE CADA UM GRAVOU

PATO FU - A banda mineira inaugura o site com duas músicas inéditas, que estarão em seu próximo disco, chamado Daqui pro Futuro, que chega às lojas ainda neste mês. Numa loja de brinquedos, executaram Mamã Papã. No quintal de casa, a escolhida foi Vagalume.

MARIANA AYDAR - Do repertório de seu show atual, a cantora trouxe a deliciosa 1,2,3, da francesa Camille, com Mário Manga e Duani. No Playcenter, ela e seu namorado, o também músico Duani, além de se divertir, fizeram apresentação exclusiva de Na Gangorra e Minha Missão.

THALMA DE FREITAS - Thalma convidou o rapper Max B.O. para dividir com ela os vocais de Minha Noite e de Manhã. Em plena Praça do Pôr-do-Sol, a dupla improvisou uma canção inédita: Monstro ao Pôr-do-Sol.

MART''''NÁLIA - A cantora chamou a equipe para uma jam session no quarto do hotel onde se hospedava em São Paulo durante uma temporada para dividir com ela a canção Pretinhosidade. Do quarto, seguiu de violão em punho para o telhado do prédio em uma tarde chuvosa e fria paulistana ao som de Chega.

CHINA - Cantando no banheiro, ele empunhou o violão e soltou a voz para mostrar Canção Que não Morre no Ar. No palco do Studio SP, foi a vez de mostrar Anti-Herói, a canção que fez para o filho.

ÉRIKA MACHADO - A Pampulha e seus belos arredores serviram de cenário para a cantora dedilhar várias canções de seu último disco: Alguém da Minha Família, Secador, Maçã e Lente e Robertinha. Com Fernanda Takai, do Pato Fu, cantou As Coisas em plena cozinha

ALZIRA ESPÍNDOLA - A cantora resolveu dar uma volta na praça na Lapa em São Paulo onde sempre caminha para mostrar suas preferidas, incluindo Ouvindo Lou Reed e Diz.

OS PRÓXIMOS - Arnaldo Antunes, Tom Zé e outros já estão na lista. Quem quiser se candidatar, é só acessar o site Bar Chopetta (Rua Tucumã, 269), das 17 às 21 horas.

Assista a vídeos sobre o projeto Música de Bolso no Portal do Estadão