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Cena ressurge ampliada em obra de referência

Lançado pela Perspectiva, Dicionário do Teatro Brasileiro ganha segunda edição, com 23 novos verbetes e definições mais abrangentes e alguns agora revisados

23 de dezembro de 2009 | 0h 00
Beth Néspoli - O Estadao de S.Paulo

Três anos depois de seu lançamento, o Dicionário do Teatro Brasileiro ganha uma segunda edição, ampliada e revisada, com 23 novos verbetes. Editado pela Perspectiva, e organizado pelo professor J. Guinsburg, pelo historiador João Roberto Faria e pela crítica do Estado Mariangela Alves de Lima, foi publicado em 2006 com 357 páginas e 39 colaboradores. Em sua reedição, já atualizada de acordo com as novas normas ortográficas, conta com 400 páginas escritas por 45 especialistas de reconhecido saber.

Além do trio de organizadores, assinam verbetes ensaístas, críticos e acadêmicos como Maria Sílvia Betti, Maria Thereza Vargas, Silvia Fernandes, Ilka Marinho Zanotto, Tânia Brandão, Ingrid Koudela, André Carreira e Luiz Fernando Ramos além de artistas afeitos à constante reflexão sobre as artes cênicas, seja na área pedagógica, no papel de mestres, seja no exercício da escrita, como o dramaturgo Luis Alberto de Abreu, o cenógrafo J.C. Serroni e a atriz Lúcia Romano.

Os acréscimos seguem o objetivo de origem - ser um dicionário conceitual e não um "quem é quem", ou glossário de termos técnicos, ou ainda estudo de ângulo histórico. O desejo dos organizadores, desde sempre, era o de que fosse possível compreender um pouco do pensamento que funda a cena brasileira a partir da leitura e conexão entre os verbetes. A inspiração assumida é o Dicionário do Teatro, de Patrice Pavis, cuja tradução em português foi editada pela Perspectiva. Porém, nas páginas do modelo europeu não é possível encontrar termos como "antropofagia e teatro", presente no brasileiro, verbete no qual se lê sobre a origem estética do conceito no Manifesto de Oswald de Andrade e sua transmutação para a linguagem cênica em espetáculos como O Rei da Vela, de Zé Celso, ou Teatro Anarquista, que trata das encenações de imigrantes europeus criadas para difundir um ideário político, dois exemplos já constantes na primeira edição.

Agora "entram em cena" verbetes como Teatro de Grupo, para definir um fenômeno que "modificou a paisagem teatral brasileira nas décadas de 1900 e 2000". Extenso, o texto sublinha que, embora coexistam modos de organização e produção diversos, os coletivos reunidos sob essa definição têm em comum a valorização do "percurso criativo prático e a base teórica em detrimento da obra como um fim em si mesmo". E traz ainda um trecho da entrevista de Paulo Arantes publicada no Caderno 2 em que ele analisa a potência e as fragilidades do movimento dos coletivos teatrais atuantes na cidade de São Paulo no início de século 21.

João Roberto Faria destaca a inclusão do Movimento Arte Contra a Barbárie, a mobilização da classe teatral em São Paulo que tem entre suas conquistas a Lei de Fomento ao Teatro e entre seus reflexos a criação do Redemoinho, Movimento Brasileiro de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral. Este último chegou a abrigar 70 grupos de 11 Estados, pouco depois do primeiro encontro na sede do grupo mineiro Galpão, em 2004. "Eu argumentei pela inclusão desse verbete", diz Faria. "Uma vez que estávamos atualizando o dicionário, achei que esse registro não poderia faltar, porque é um movimento em defesa do teatro e de políticas culturais de maior visibilidade na cidade de São Paulo."

Outra inclusão, desta vez assinada por Faria e J. Guinsburg, dá conta conceitualmente do teatro de tese, que no Brasil perpassa desde a catequese teatralizada de Anchieta e a dramaturgia de Joracy Camargo até a cena politizada do paulistano Arena. "Buscamos registrar um pouco melhor os momentos em que o teatro brasileiro foi instrumentalizado em defesa de alguma lição moral, religiosa ou política."

Já o termo nova dramaturgia, inexistente na edição anterior, dá conta de um conjunto de textos com pontos em comum, assim denominada na década de 70, de autores como Antonio Bivar, Consuelo de Castro, Leilah Assunção e José Vicente.

Entre os novos verbetes muitos dizem respeito ao teatro de bonecos e manifestações populares, cuja ausência foi apontada por leitores, ventríloquo e cavalo marinho. "Fizemos algumas correções como no título da peça O Que Diz Molero, em pós-moderno, e acrescentamos novos dados em alguns verbetes, como teatro de rua." Este último, está entre os que têm entre suas qualidades abordar a cena de diferentes Estados do Brasil.

Serviço

Dicionário do Teatro Brasileiro. Coordenação de J. Guinsburg, João Roberto Faria e Mariangela Alves de Lima. Editora Perspectiva. 400 páginas. R$ 80