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Chegou a hora do plano saudita

Proposta ''terra por paz'' seria melhor saída para israelenses e palestinos

09 de setembro de 2010 | 0h 00
Thomas L. Friedman, The New York Times - O Estado de S.Paulo

Já faz uma semana e as recém-inauguradas conversações de paz palestino-israelenses ainda não fracassaram. Certamente é um bom sinal. Comemorar sua persistência por uma semana dá uma ideia de quão escassas são as expectativas que elas inspiram. Mas agora que as sessões começaram, cada lado tentará evitar fazê-las afundar - e não apenas para não provocar a ira dos EUA.

O fato é que agora chegou-se à conclusão de que, após todos estes anos de intermitentes começos e recomeços do processo - em que alguém declara: "Este é o ano decisivo, e se estas conversações fracassarem, o processo de paz estará morto e enterrado" - desta vez talvez isto venha mesmo a acontecer. Se fracassarem, com os 300 mil colonos israelenses que já vivem na Cisjordânia, e com o Hamas abrigado com seu governo em Gaza, a ideia da "solução dos dois Estados" passará a fazer parte do reino da fantasia.

Mas, embora as conversações estejam vivas, carecem de um sentido dramático ou de possibilidades mais amplas. Isso ocorre em parte porque tanto o premiê israelense, Binyamin "Bibi" Netanyahu, quanto o presidente palestino, Mahmoud Abbas, sabem que hoje, para fazer a paz, terão de arcar com uma pequena guerra civil no interior de cada uma das respectivas comunidades.

Mesmo que os dois lados troquem terras entre si, e 80% dos colonos israelenses da Cisjordânia possam ficar, 60 mil terão de ser retirados. Mesmo que Abbas consiga 100% da Cisjordânia e Jerusalém Oriental, o Hamas denunciará todo acordo de paz e, com a ajuda do Irã, o usará a violência para derrubá-lo.

Na realidade, estas conversações poderiam usar um impulso emocional que lembrasse aos israelenses, em particular, que a paz não acarreta apenas riscos enormes para a segurança, como traz também benefícios imensos. Eu sei como fazer isto.

Há cerca de oito anos, entrevistei o então príncipe Abdullah, hoje rei da Arábia Saudita, em Riad. Mostrei-lhe uma coluna que eu havia escrito, na qual sugeria que a Liga Árabe apresentasse um plano oferecendo a Israel a paz em troca da retirada total da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém Oriental para um Estado palestino. Ele fingiu estar surpreso e disse: "O senhor arrombou minha gaveta?" Abdullah afirmou que estava preparando este mesmo plano e o mostrou - "retirada total de todos os territórios ocupados, segundo as resoluções da ONU, até mesmo de Jerusalém, para a plena normalização das relações". E acrescentou: "Queria descobrir uma maneira de fazer o povo israelense entender que os árabes não o rejeitarão nem o menosprezarão."

Era uma decisão importante e seu plano foi rapidamente adotado pela Liga Árabe. Desde então permaneceu flutuando na esfera das possibilidades diplomáticas.

Mas só ficou flutuando. Está na hora de trazê-lo para a terra. Abdullah deveria convidar Netanyahu a Riad e apresentar-lhe pessoalmente seu plano. Não consigo imaginar outra coisa que pudesse dar às conversações de paz um impulso maior. Entregando-lhe o plano, o monarca saudita provocaria um enorme debate em Israel. Ficaria mais difícil para Netanyahu continuar a construção dos assentamentos - e estimularia o público israelense a instar Netanyahu a assumir riscos pela paz. Hoje, Netanyahu é o único líder israelense que pode fazer um acordo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA E ESCRITOR