Cientistas criam milho fortificado
Espanhóis desenvolveram produto transgênico com níveis altos de betacaroteno e vitaminas B e C
Cientistas espanhóis desenvolveram um milho transgênico com níveis elevados de três nutrientes: betacaroteno (precursor da vitamina A), folato (vitamina B) e ascorbato (vitamina C). O genoma da planta foi modificado com três genes, uma para a síntese de cada molécula.O experimento foi feito com o milho branco, principal variedade consumida na África subsaariana, e os cientistas propõem que ela seja usada para reduzir a desnutrição no continente.
Não é a primeira vez que pesquisadores inventam um transgênico "fortificado". O produto mais famoso nessa linha é o chamado "arroz dourado", que contém níveis elevados de betacaroteno. Outros exemplos incluem alface com alto teor de ferro e tomates com mais licopeno. Nenhum deles, porém, obteve sucesso comercial até agora. Todos os transgênicos disponíveis no mercado são plantas modificadas com características de produção, como resistência a herbicidas e insetos.
A produção de alimentos mais nutritivos - com benefício direto para o consumidor, e não só para os produtores - é uma das grandes promessas da pesquisa com transgênicos. Segundo os cientistas espanhóis, seu milho geneticamente modificado contém 169 vezes mais betacaroteno, 6 vezes mais ascorbato e 2 vezes mais folato (ácido ascórbico e ácido fólico são os nomes dados às versões sintéticas dessas vitaminas).
O trabalho está publicado na edição desta semana da revista PNAS, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. O artigo descreve apenas a transformação genética da planta. Ainda não foram feitos estudos para comprovar a segurança nem a eficácia nutricional do milho na alimentação - para saber se as vitaminas são absorvidas e metabolizadas normalmente pelo organismo.
Por causa do betacaroteno, a cor do milho mudou de branco para um amarelo alaranjado (mesmo efeito do "arroz dourado"). Os cientistas acreditam que a planta poderá servir como um reforço nutricional importante em regiões onde a disponibilidade de alimentos é limitada - tanto em quantidade quanto em variedade.
"A adoção do milho com valor nutritivo aumentado vai melhorar a qualidade de vida e a saúde das populações mais pobres do mundo", escrevem os pesquisadores. Porém, isso só será possível se as "diferenças políticas" forem deixadas de lado e a regulamentação dos transgênicos for feita com base em critérios científicos, completam os cientistas - em uma referência à oposição que é feita aos transgênicos em vários países.
Do ponto de vista técnico, a obtenção de uma planta modificada com três genes é uma façanha, segundo o geneticista Ernesto Paterniani, professor aposentado da Escola Superior Agrícola Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo. "Certamente é algo que pode trazer um benefício muito grande para a nutrição humana e animal", avalia.
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