A vocação do cinema em retratar personagens históricos é notória e antiga. De Abraham Lincoln a John Fitzgerald Kennedy, de Nixon a Hoffa, ou, para falar nos atuais, de J. Edgar Hoover a Margaret Thatcher, a indústria cinematográfica sempre soube tirar partido do interesse despertado pelos grandes personagens da História. Entre nós, com certo atraso é verdade, não é diferente: figuras como Tiradentes, dom Pedro I, Carlota Joaquina, Lampião, o visconde de Mauá e muitos outros saíram dos livros didáticos diretamente para as telas do cinema.
Leonardo DiCaprio vive o criador do FBI em 'J. Edgar', de Clint Eastwood
Mesmo personagens controversos, ou francamente odiados, se revelaram ótimos personagens no cinema. São os casos de guerrilheiros de esquerda como Lamarca ou Che Guevara, ou tiranos de direita como Hitler e Mussolini. Todos podem se tornar personagens atraentes, desde que bem tratados pelos cineastas que por eles se interessam e os interpretam.
Esse é o xis da questão: quem faz o filme precisa adotar um ponto de vista sobre o personagem. Inútil pedir ao cinema que seja isento como um magistrado, exaustivo como um biógrafo ou analítico como um historiador. O cinema traça um perfil; escolhe determinado ângulo pelo qual tenta iluminar a vida do personagem e, nos melhores casos, o período em que ele vive e atua. Também nos casos mais felizes, procura fornecer um olhar flutuante, abrindo espaço para as várias interpretações de que se compõem o enigma de uma vida e, ainda mais, de uma vida pública, com atuação no espaço social.
Para voltar aos filmes que estão agora estreando no circuito brasileiro, J. Edgar (entrou em cartaz na sexta), de Clint Eastwood, e A Dama de Ferro (prometido para 10 de fevereiro), de Phyllida Lloyd. A escolha dos diretores recaiu sobre duas figuras de poder do século 20, que tiveram, em décadas distintas, grande influência sobre os rumos do mundo. Claro, a participação de Hoover foi mais local, mas o poder acumulado em país tão importante quanto os Estados Unidos não deixa de ter repercussão mundial. Mais global ainda é o caso de Thatcher que, em parceria com seu colega americano Ronald Reagan, foi, em boa parte, responsável pela configuração do mundo contemporâneo. Foram suas políticas coordenadas, nos anos 1980, que puseram fim, prematuramente, ao "breve século 20", na interpretação do historiador Eric Hobsbawm.