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CNT evita divulgar onde Kadafi foi enterrado

O conselho garante, no entanto, que parentes estavam presentes na cerimônia, que teria seguido ritos muçulmanos

26 de outubro de 2011 | 3h 05
ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI - O Estado de S.Paulo

O circo armado por forças revolucionárias de Misrata, na Líbia, em torno dos corpos de Muamar Kadafi, de seu filho Moutassim e de seu ministro da Defesa, Abu Bakr Younes, chegou ao fim ontem. Depois de mais de quatro dias de exposição em uma câmara fria em um mercado popular, os três cadáveres foram sepultados em uma cerimônia muçulmana, realizada em local secreto.

Lugar onde Kadafi foi encontrado pelos rebeldes - Mohamed Messara/EFE
Mohamed Messara/EFE
Lugar onde Kadafi foi encontrado pelos rebeldes

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O enterro ocorreu na madrugada de ontem, em algum lugar do deserto mantido sob sigilo pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), que desejava impedir que o túmulo se tornasse local de peregrinação de seus fiéis. O comitê não aceitou o pedido da família de Kadafi, que gostaria que o corpo lhe fosse entregue. Em lugar disso, o governo interino afirmou que levou ao local do enterro clérigos ligados ao regime, bem como parentes presos no comboio do ditador.

O enterro não encerra a polêmica sobre o tratamento recebido pelo ditador deposto quando foi capturado. Um novo vídeo obtido pelo website americano GlobalPost mostrou ontem que Kadafi foi torturado quando era carregado pela multidão. As imagens completam, de outro ângulo, as do primeiro vídeo, revelado na quinta-feira. Kadafi aparece sendo sodomizado por uma adaga empunhada por um rebelde no momento em que estava preso.

As evidências reforçam as suspeitas de que o ex-ditador tenha sido preso com vida e morto quando estava em poder dos rebeldes - o que contraria as convenções da ONU para o tratamento de prisioneiros. Na segunda-feira, o presidente do CNT, Mustafa Abdeljalil, anunciou que "em resposta aos pedidos internacionais" o conselho instaurou uma comissão encarregada de investigar as circunstâncias da morte.

Em Misrata, o coordenador militar do CNT, Ramadan Zarmouh, demonstrou ao Estado não compreender a preocupação da comunidade internacional. "Por que ninguém mais fala das vítimas de Kadafi?", questionou, ao término da entrevista em que foi indagado sobre as suspeitas de crimes de guerra.

Além dos indícios de execução de Kadafi e Mutassim, a ONU e ONGs de direitos humanos se disseram preocupadas com a situação dos refugiados de Bani Walid e de Sirte, as duas últimas cidades sob o poder de forças leais a Kadafi. Para vistoriar a situação, a ONU enviou à região um coordenador humanitário, encarregado de pressionar as autoridades a restabelecer o fornecimento de água e energia elétrica, de limpar a cidade, desativar explosivos que ainda estejam no local e dar início à reconstrução das casas.

Os membros da ONU também deverão investigar as responsabilidades sobre prováveis execuções de prisioneiros em Sirte. Na segunda-feira, a Human Rights Watch revelou que 53 corpos de soldados haviam sido encontrados no jardim de um hotel com sinais de morte sumária. Ontem, o número de corpos recolhidos chegava a 300. Eles estão sendo enterrados em valas coletivas.

Do Níger, Saadi Kadafi, filho do coronel, divulgou nota por meio de seu advogado exortando a comunidade internacional a reagir contra as execuções. "As afirmações contraditórias do CNT desculpando as execuções bárbaras mostram que as pessoas ligadas ao antigo regime não terão direito a um processo justo na Líbia e não receberão Justiça pelos crimes que lhes foram cometidos", disse Saadi.

Otan. Em outro foco das atenções na Líbia, o secretário-geral da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan), Anders Fogh Rasmussen, reiterou a intenção de encerrar a operação até o dia 31.

Em resposta, o ministro da Economia e do Petróleo do CNT, Ali Tarhouni, pediu à instituição que prossiga no país pelo menos mais um mês. O pedido leva em consideração as buscas pelo filho de Kadafi ainda desaparecido, Saif al-Islam, cujo comboio estaria se aproximando da fronteira com o Níger.