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Com 65 mortos na Kiss, faculdade faz 'pacto' de silêncio

No Centro de Ciências Rurais da UFSM, tragédia vira tabu entre estudantes; 80 alunos têm atendimento psicológico ou psiquiátrico

26 de janeiro de 2014 | 2h 02
DIEGO ZANCHETTA , ENVIADO ESPECIAL / SANTA MARIA - O Estado de S.Paulo

A tragédia na boate Kiss é assunto quase proibido no prédio do Centro de Ciências Rurais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Dos 242 mortos, 65 estudavam ali, onde estão os cursos de Agronomia, Engenharia Florestal e Medicina Veterinária. Qualquer aluno ou professor muda imediatamente a feição e o tom de voz ao conversar sobre aquele 27 de janeiro. Em algumas turmas, lembrar dos colegas que não sobreviveram foi oficialmente vetado.

Os psicólogos que fazem o acompanhamento de 80 alunos do centro orientam seus pacientes a não falar daquela madrugada nas salas de aulas ou nos encontros fora da faculdade. A maior parte desses estudantes conseguiu escapar no início do incêndio. Alguns carregam queimaduras nos braços e oito se recuperam de lesão pulmonar. A festa era organizada pela 89.ª turma de Agronomia - dos 36 alunos da sala, 10 morreram.

Em nenhum outro lugar de Santa Maria a tragédia mudou tanto a rotina e a vida das pessoas quanto no prédio das Ciências Rurais. "Eu consegui sair logo com as primeiras pessoas. Nem consigo falar muito sobre isso. Agora, então, que está completando um ano, para mim está pior. É muito difícil", relata uma das sobreviventes, Daniele Aguiar, de 23 anos, aluna de Agronomia.

Ela continua em tratamento psicológico, assim como seu colega de classe Gabriel Madalosso, de 20 anos, que também foi socorrido com vida da Kiss. Um núcleo da UFSM com quatro psiquiatras e quatro psicólogos dá suporte emocional aos 2.400 estudantes do Centro de Ciências Agrárias. A tragédia completa um ano sem ter qualquer menção nos corredores, salas e murais do prédio, cercado por bosques e áreas gramadas livres, localizado a 20 km do centro de Santa Maria.

Pacto. Por causa de uma greve no segundo semestre do ano passado, os alunos continuam em aulas neste mês. O silêncio sobre a tragédia parece um pacto entre os estudantes. Eles argumentam que a universidade precisa voltar a ter uma existência desvencilhada daquele dia. Os folhetos de festas e de formaturas também são raros.

"No máximo, o que teve esse ano foi um churrasco ou outro. Mas não é a mesma coisa, as pessoas ficam metade do tempo que ficavam antes e vão embora. Festa em lugar fechado ninguém mais quer fazer. As coisas mudaram muito por aqui", conta Alex Schonell, de 19 anos, da 89.ª turma de Agronomia.

"O mais difícil foi retomar as aulas práticas e de laboratório. Muitos perderam seus parceiros de provas e de trabalhos. Você chegava para uma aula e o cara que dividia com você toda uma rotina e o raciocínio da matéria não estava mais ali", conta Schonell.

Ele só não foi à boate porque seu parceiro de baladas estava sem dinheiro naquela noite. Mas, ao saber do incêndio, correu para a frente do estabelecimento, na Rua dos Andradas. "Quando eu cheguei já vi logo de cara dois corpos de amigos da minha sala estirados, sem a lona por cima. É um momento que não sai da cabeça mais", diz o estudante.

O clima pesado também contagiou os calouros dos cursos de agrárias. "As pessoas tentam não ficar tristes, mas de vez em quando desabam, sempre tem alguém que lembra de algo daquele dia. Não existiu um clima universitário no ano passado. Antes falam que tinha festa de segunda a segunda", conta o calouro Frederico Nevenschander, de 23 anos, do curso de Engenharia Florestal.

"Até as formaturas ficaram complicadas. Alguns alunos vão até o salão, no dia da festa, só para ver se os extintores estão cheios. Estava todo mundo paranoico. As turmas pedem para as empresas que organizam as festas o mapa das saídas, fazem mil perguntas, querem saber se usam espuma no teto", conta Gustavo Irbek, de 20 anos, do 6.º semestre de Engenharia Florestal.




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