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'Com a máfia dos fiscais, houve ameaças. Parei de andar de ônibus'

Prefeito diz não temer nada quando se trata de questões morais, mas afirma que 'temperatura subiu' após denúncias

22 de dezembro de 2013 | 2h 03
ARTUR RODRIGUES , MARCELO GODOY - O Estado de S.Paulo

Haddad costuma tomar como elogio ser visto como alguém pouco político e muito técnico. Em seu primeiro ano, buscou justificativas técnicas para diversas decisões, do ataque à gestão anterior no que se refere à apuração das denúncias da máfia dos fiscais à necessidade de aumentar a tarifa para R$ 3,20 ou adotar o IPTU progressivo - apesar do recuo nos aumentos. Ele vê a criação da Controladoria-Geral como marco histórico e diz que até houve ameaças após as denúncias de corrupção. Veja abaixo os principais pontos da entrevista ao Estado.

 - Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

MÁFIA DOS FISCAIS

Nós desbaratamos a maior quadrilha que se instalou aqui e que operou de 2005 a 2012 livremente. Nós não teríamos o mesmo sucesso sem a parceria com o Ministério Público. A Controladoria é um marco na história da cidade, mas tinha limites. Graças à parceria com o MP, nós levamos o caso ao Judiciário, quebramos o sigilo de todos e descobrimos o que descobrimos. Tem dois ou três secretários do (governador de São Paulo, Geraldo) Alckmin que estão sendo acusados de receber propina (no caso do cartel metroferroviário). O governador está convencido da inocência deles, assim como eu estou do (ex-secretário de Governo, Antonio) Donato (que saiu da administração após ser citado pela quadrilha dos fiscais). O Donato preferiu se afastar. Eu, no lugar dele, faria o mesmo.

AMEAÇAS

Desde a questão da máfia dos fiscais, como houve em algumas gravações, houve ameaças... até para atentar contra a vida das pessoas. Eu dei uma suspendida no ônibus por causa disso (em outubro, Haddad começou a usar ônibus para ir à Prefeitura). A temperatura ficou alta demais. O (controlador Mário) Spinelli também sofreu ameaças. Fomos convidados a nos preservar um pouquinho mais nesse período. Mas já, já, essa poeira vai baixar.

CORRUPÇÃO

A maioria dos políticos conservadores abafa CPI, não monta uma controladoria. Eu não temo absolutamente nada quando se trata de questões morais. Porque, se eu tiver de abrir mão disso para continuar na política, peço licença e volto a dar aula. Não tem cabimento a gente abrir mão de resgatar o lado bom da política, que é o lado da transformação social, do respeito ao cidadão.

IPTU

Existe uma lei aprovada pelo PSDB que determina a revisão da Planta Genérica de Valores no primeiro ano de mandato. Foi o que fizemos, cumprimos ali. Aí, uma decisão do Tribunal (de Justiça de São Paulo) nos impede de fazer a revisão de valores no primeiro ano de mandato. Então, são contradições.

FAIXAS DE ÔNIBUS

Pergunte para qualquer especialista em transporte se a decisão está errada de privilegiar o transporte público. Agora, precisa da coragem política para tomar essa decisão. Estamos 20 anos atrasados. Depois da Marta, ninguém fez nada. Não tem cabimento um carro que leva 50 pessoas ficar atrás de um que leva uma. Como vou manter na mesma fila um carro com 50 pessoas se acotovelando e o outro... não tem cabimento, não faz sentido. Então, eu tenho de ter uma faixa exclusiva para o ônibus.

TÁXIS NOS CORREDORES

Nós fizemos o estudo e demonstramos que, quanto mais sobrecarga há sobre as faixas, menos o ônibus caminha. Uma lei da física. A Prefeitura não é obrigada a seguir a determinação do Ministério Público (de retirar os táxis em 45 dias, a partir de 17 de dezembro) porque pode discutir judicialmente se é o caso ou não de fazer isso. Os 45 dias são um bom tempo. Porque queremos discutir com o Conselho da Cidade e o Conselho de Transporte essas questões. Alguém pode dizer: "O Haddad não é político. Se deixasse (táxi) entrar (na faixa), teria 30 mil cabos eleitorais". Se eu olhar só para isso não vou construir a cidade que as pessoas querem.

TARIFA A R$3

Eu acho que o ano que vem nós vamos ter um bom ambiente de debate. Porque nós, a princípio, tomamos a decisão de segurar em 2014 o reajuste. Por ser ano eleitoral, nós poderemos enriquecer o debate sobre transporte público, pautando esse assunto. Essa pergunta será feita aos candidatos a presidente.

PROTESTOS E SEGURANÇA

Eu não acho que o que aconteceu (em junho) causa medo. Tirando um dia preocupante, que foi aquele pêndulo das forças de segurança. Numa quinta-feira, (a polícia disparou) bala de borracha em todo mundo. Na terça seguinte, (houve) omissão total. Esse pêndulo preocupa. A gente quer uma segurança, mas com formação de um Estado democrático de Direito. Aquela oscilação de comportamento, eu acho, quem entende de segurança, se preocupou. Não pode oscilar tanto, de um extremo a outro. Não é possível que o governo do Estado não tenha sentado com o Comando (da Polícia Militar) e extraído lições daqueles dois episódios, um episódio de repressão que levantou o País e, depois, a completa omissão, a ponto de um prédio histórico ter sua segurança comprometida (no dia 18 de junho, manifestantes contra o aumento da tarifa de ônibus tentaram invadir a sede da Prefeitura).

RENEGOCIAÇÃO DA DÍVIDA

Nós fomos extremamente bem-sucedidos na questão da dívida, apesar da pressão enorme de setores contrários. Aprovamos na Câmara, por unanimidade, com apoio da oposição. Aprovamos na Comissão de Constituição e Justiça e na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. O projeto está pronto para ir a plenário. Então, só essa conquista vai justificar muito do nosso trabalho. Porque vamos corrigir uma falha que foi cometida pelo presidente Fernando Henrique e pelo prefeito Celso Pitta, que colocou São Paulo de joelhos diante da União, pagando uma taxa de juros exorbitante.

PRECATÓRIOS

A cidade deve 20% da dívida de precatórios do País (cerca de R$ 18 bilhões). Uma cidade. Você soma 5.564 municípios, 26 Estados, o Distrito Federal, soma tudo, São Paulo deve 20% dessa dívida. Você está falando de valores além das possibilidades concretas de não colocar em risco serviços essenciais.

MORADORES DE RUA

Havia uma preocupação muito grande com a Sé. Em janeiro, ela estava em uma situação desesperadora. Foi feito um trabalho em 17 praças, todas tomadas por barracas, tomadas por favelinhas. As pessoas esquecem a situação em que a cidade estava. Ali (nos centros de convivência para moradores de rua) houve um erro de condução. Nós estamos reavaliando.

CRACOLÂNDIA

Tivemos dois problemas. No Parque Dom Pedro (no centro de convivência) e na região da Luz, que são os nossos dois focos de atenção, e nós queremos construir uma solução que não repita dois anos atrás. Foi um desastre a intervenção da polícia, você disseminou minicracolândias pela cidade. Nós vamos nos dedicar a esses dois territórios. Vamos resolver esses problemas. 




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