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Com o poeta, em sua intimidade

Filme concebido pelo neto Pedro vai mostrar o dia-a-dia do escritor, numa tentativa de desmistificar sua fama de recluso

08 de novembro de 2007 | 0h 00
Roberta Pennafort - O Estadao de S.Paulo

Carlos Drummond de Andrade não era dado a homenagens. Não aceitou placa com seu nome na rua onde morava no Rio. Recusou um prêmio de intelectual do ano. Provavelmente, não se sentiria merecedor de uma estátua em tamanho natural num banco da Praia de Copacabana. Nunca conseguiu, no entanto, escapar dos tributos daqueles que o consideram o último grande poeta brasileiro. Agora, quando se completam 20 anos de sua morte, o interesse por sua obra e por sua personalidade se renovam. Entre as iniciativas que celebram o ilustríssimo itabirano e jogam luzes sobre sua vida e relevância para a literatura brasileira, a mais interessante ainda está sendo gestada e deverá consolidar-se somente em 2008.

Trata-se de um documentário que contará um pouco da vida privada de Drummond, sempre tão bem preservada, terá entrevistas com parentes e com gente que fez parte do dia-a-dia do poeta - os vizinhos, o jornaleiro da esquina das ruas Raul Pompéia com Júlio de Castilhos, em Copacabana, onde ele comprava jornal, a dona da livraria Leonardo da Vinci, no centro, feita de sala de visitas pelo escritor por muitos anos. A idéia foi de Pedro Drummond, um de seus três netos, e Maria de Andrade, filha do cineasta Joaquim Pedro de Andrade e sócia da produtora Filme do Serro, fundada pelo pai. O poeta e o avô de Maria, o jornalista e escritor Rodrigo Melo Franco de Andrade, eram grandes amigos, e a relação estreita se estendeu aos netos. Eles decidiram realizar um filme ''''bem carinhoso'''' sobre Drummond, que já fora personagem de outros documentários. ''''Queremos fazer um filme íntimo, com uma abordagem familiar, para mostrar seu cotidiano'''', conta Maria.

O lançamento no ano que vem pega carona nos 80 anos de publicação de No Meio do Caminho, que saiu pela primeira vez na Revista de Antropofagia.Também para 2008, a família de Drummond espera a realização de um projeto do selo Luz da Cidade (especializado em gravações de poesia e prosa lidas pelos autores): a reedição, em CD, do disco Antologia Poética, gravado por Drummond em 1978. O selo tenta há dois anos obter autorização da Universal, dona do material, para relançá-lo.

Já para este ano há duas as novidades. Uma é a compilação de poemas sobre Natal e Ano-Novo, de bolso, feita pela Record. Receita de Ano Novo chega às lojas em outubro. Alguns poemas nunca haviam sido incluídos em livro, um deles, datado de 25 de dezembro de 1960, e só conhecido pelos leitores do jornal Correio da Manhã -é este que o Estado publica nesta edição.

Até o fim do ano, a editora de Drummond relançará A Bolsa e a Vida, Tempo Vida Poesia, 70 Historinhas e Poder Ultrajovem, como parte do projeto de reedição da obra completa. A outra boa nova é o livro Querida Favita: Cartas Inéditas, editado pela Universidade Federal de Uberlândia. Ele traz parte da correspondência entre o poeta gauche e sua sobrinha Flávia, que perdurou por 16 anos e foi interrompida meses antes de ele morrer do coração (12 dias depois de perder Maria Julieta, sua única e amada filha, e a dois meses do aniversário de 85 anos).

A publicação, reveladora de um Drummond afetuoso com a família e irônico ao falar de política, sai dez anos após a divulgação de cartas entre ele e Maria Julieta - que mostrou um pouco da vida privada do poeta, conhecido pela discrição extrema.

Pedro, o neto, discorda do rótulo de escritor recluso do avô. Nunca considerou Carlos (é desse jeito que se refere ao poeta) tão tímido assim, alguém avesso ao contato com o outro. ''''Era calado, mas não se negava ao diálogo'''', diz. ''''Carlos gostava do carinho das pessoas. Quando fez 80 anos, recebeu montanhas de cartas e respondeu a todas.''''

A interação dos passantes com a imagem do avô na praia de Copacabana o diverte (é comum ver gente conversando com o poeta; certa vez, tascaram-lhe uma casca de banana na careca). ''''Já tirei cinco mil fotos curiosas. No carnaval, ele foi fantasiado. Na parada do orgulho gay puseram um chapéu cor-de-rosa na cabeça dele.''''

Pedro guarda doces lembranças do avô, com quem conviveu intensamente em seus últimos anos de vida (Pedro nasceu em Buenos Aires, para onde sua mãe se mudara depois de se casar): as férias passadas no Rio quando menino, as histórias antes de dormir, os livros que retirava de sua biblioteca para dar aos netos, as conversas no escritório do apartamento da Rua Conselheiro Lafayette, em Copacabana (hoje ocupado por ele, a mulher e o filho Miguel, nascido em 24 de julho, primeiro bisneto de Drummond).

Vanna Piraccini, a dona da livraria Leonardo da Vinci, é outra que teve o privilégio de conhecer o poeta mineiro pessoalmente. ''''Drummond começou a freqüentar a livraria em 1953. Era muito querido. As pessoas sabiam que ele era cliente e deixavam livros para ele autografar.''''

Na entrada, ela mantém uma poesia que o cliente célebre dedicou à livraria, também retratada em artigos em jornais. ''''Até hoje chamo o sofá que fica nos fundos de ''''o sofá do Drummond''''. Ele ficava lá, discretamente, recebia pessoas, como jornalistas e pesquisadores de sua obra. Não queria fazer isso em casa para preservar sua privacidade.''''