
Cômico e trágico
NOVA YORK
Quantas vezes o sofrido público americano terá de ver decretado o fim de sua lua de mel com Barack Obama? A semana passada foi rica em exemplos. Na segunda-feira, um dos mais lidos colunistas de mídia do país, Howard Kurtz, do Washington Post, recorreu ao comediante Jon Stewart para tomar o pulso do público. Kurtz viu no número crescente de piadas sobre Barack Obama exibidas no Daily Show de Stewart um sinal indelével de que a maré não está para Barack. Como provas, enumerou exemplos, entre eles: Stewart gozou o presidente por usar um telepromter para falar numa escola de segundo grau; um dos comediantes que fazem o papel de jornalistas no programa, Larry Wilmore, o "correspondente negro sênior", disse que Obama sofria do racismo das altas expectativas. O colunista também recorreu a um analista acadêmico para dispensar a noção de que Stewart é um árbitro cultural e, se o cômico à esquerda do mainstream americano está satirizando Obama, sim, é hora de apertar o botão do pânico na Casa Branca. Não é nenhuma novidade que comediantes como Stewart e sua cria, Stephen Colbert, preencheram o vácuo crítico deixado pelo jornalismo nos oito anos do governo de George W. Bush. A carnificina no Iraque teve poucas denúncias tão eficazes e difundidas para um público mais jovem quanto a sátira do canal Comedy Central.
Não podemos esquecer também que, quando a revista Time pesquisou a credibilidade dos âncoras de telejornais no ano passado, logo após a morte do lendário Walter Cronkite, Jon Stewart foi apontado como o "jornalista" mais confiável, com 43% dos votos. O segundo lugar, com 29% dos votos, ficou com o âncora real da ABC, agora aposentado.
A máxima repetida com frequência por humoristas ? "comédia é tragédia somada ao tempo" ? vem a lembrança quando se considera que as consequências trágicas do desgoverno americano foram expostas por inúmeros e talentosos comediantes americanos.
Mas a noção de que o jornalismo precisa recorrer a um show de entretenimento como mediador da realidade é alarmante. Perplexo com a importância que lhe atribuem, Stewart voltou a denunciar o absurdo no programa. Selecionou o número de manchetes que usaram o verbo "destruir" ligado a seu nome, como em "Jon Stewart destrói fulano em seu monólogo". Mostrou como os blogs, desesperados por atenção, usam verbos bombásticos nos títulos para distorcer e resumir a realidade mais complexa. Em 2004, Stewart foi a um programa de debate político da CNN e desancou os apresentadores por promover sensacionalismo barato. Meses depois, a CNN tirou o programa do ar, a cobertura do fato concluiu que a participação de Stewart havia sido o golpe fatal.
A ideia de que o jornalismo precisa monitorar o romance do eleitor com o presidente, como se houvesse um aparelho de eletrocardiograma capaz de transmitir numa só mensagem, o humor dos americanos, é uma distorção do papel de informar. Sugere que o público não consome informação para formar sua opinião e, sim, consulta a mídia para descobrir o que está pensando.
Vou pedir licença para repetir o cacoete e atribuir ao colega de Stewart, Stephen Colbert, o melhor momento de ironia inspirado na morte de J.D. Salinger. Em poucos minutos e com a ajuda de um convidado para servir de escada para o diálogo absurdo, Colbert mostrou-se "indignado" com a impunidade de Salinger. Um escritor famoso por escrever e não querer aparecer. Ao contrário da celebridade contemporânea ? famosa por não fazer nada e aparecer o tempo todo.
Na habitual linha de autorreferência, a mídia americana noticiou com alarde na semana passada a ida de Stewart ao programa do conservador Bill O"Reilly. Os dois já se enfrentaram antes e o debate transcorreu civilizado. A certa altura, Stewart disse ao anfitrião que o gênio da rede Fox é vender ao público a narrativa conservadora em termos simplificados.
O que faz lembrar o poder de fogo do jornalismo: contar uma história. O oposto de levantar o dedo indicador para sentir a direção do vento.
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