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'Comida é sensual. Sempre foi assim'

04 de outubro de 2012 | 3h 10
O Estado de S.Paulo

Hoje, todo mundo virou fotógrafo. E muitos viraram fotógrafos de comida. Mas e os que já faziam disso profissão? Susie Cushner é fotógrafa e professora do International Center for Photography, em Nova York. No início dos anos 2000, especializou-se em fotos de comida e gastronomia depois de fotografar os fundadores do movimento Slow Food, em Bra, na Itália. De lá para cá, não parou, publicando em diversas revistas e livros.

Em conversa por telefone, disse achar positiva a invasão dos fotógrafos amadores. E contou que tira foto com celular, tem Instagram e aplicativos mil: "O que importa é a imagem, não a ferramenta".

Foto de comida virou moda. Por quê?

Acho que duas coisas colidiram, num mesmo momento. Primeiro, um movimento gastronômico. Em todo o mundo, e especialmente nos EUA, as pessoas estão mais conscientes do que e de como comem - de onde vem o alimento, como ele é produzido. Depois, a tecnologia. Cada vez mais pessoas têm uma câmera na mão o tempo inteiro. Elas começaram a usá-la, e despertar o olhar e querer compartilhar informações, imagens. É incrível, com o acesso à tecnologia e a um novo patamar de compreensão da comida, começaram a brotar imagens - e elas têm mais espaço de circulação, em blogs, sites, redes sociais, livros e revistas.

E por que comida é tão atraente como objeto fotográfico?

Comida é sensual. Sempre foi assim. Pense em coisas como ostras, chocolate. Há centenas de anos a comida é notória por isso. E há um aspecto mais filosófico, que tem a ver com o jeito que cuidamos de nós mesmos. Comida é o componente que nos faz sobreviver, nos dá energia. É sexy. A comida tem um novo lugar na nossa vida, o jeito que a retratamos e a comemos mudou muito.

E você acha que a estética das fotos feitas usando a câmera do iPhone tem influenciado a fotografia profissional?

Tudo influencia tudo. Há uma forte influência dos smartphones na forma como se tiram fotos hoje, como documentamos nossas vidas. Além disso, é uma ferramenta tão criativa que cada vez mais profissionais incluem iPhone em seu trabalho, eu mesma faço isso. O que importa é a imagem, não a ferramenta.

Na sua opinião, a popularização das câmeras propiciou um aprofundamento da cultura visual geral?

Sim, com certeza. Pessoas que nunca pegariam numa câmera porque era algo muito técnico e complicado agora exploram a visualidade. Claro que tem muita gente tirando foto sem prestar atenção, mas acho que é bom para todo mundo focar-se em algo que lhe interessa. Se tira a foto ou não, não importa, interessa é poder se concentrar em algo, é parar por um minuto e olhar de uma forma diferente em vez de ser distraído por um monte de outras coisas em volta sem notar o que está à frente. As pessoas nem percebem que estão fazendo isso, mas, como fotógrafa, acho que é inevitável. É um benefício dessa popularização. É maravilhoso poder parar um momento do dia e focar em algo específico.

Mas, ao mesmo tempo, não há uma banalização da imagem? Acho que tudo que se manifesta na cultura é válido. É claro que há uma sobrecarga de imagens, mas vamos nos adaptando a esse novo fluxo. Os benefícios são maiores que os aspectos negativos. Há superficialidade, sim, mas não só.

E o que é crucial para fazer uma boa foto de comida?

Crucial é parar e andar à volta do objeto, observar onde a luz incide melhor sobre ele. Brincar com os ângulos, com a perspectiva. Ir devagar: essa é a minha melhor dica. É importante perceber de onde a luz vem e como ela atinge a superfície da comida é o que faz a fotografia ganhar vida.

Na fotografia profissional, usam-se alguns truques para tornar a comida mais atraente. Você os usa?

Hoje em dia usa-se menos. O importante agora é fazer a comida parecer natural. Muitos usam luz artificial, modelam a comida, eu fiz muito isso. Mas a tendência agora é o natural, o orgânico.




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