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Como Ironweed saltou do papel para o cinema

Hector Babenco fez de tudo para obter os direitos do livro, cuja nova edição será lançada em maio

06 de fevereiro de 2010 | 0h 00
- O Estadao de S.Paulo

A história da literatura norte-americana registra sagas familiares memoráveis, mas poucas trágicas como a de Ironweed, que a editora Cosac Naify coloca nas livrarias em maio, antes do lançamento (ainda sem previsão) da versão brasileira em DVD do filme homônimo dirigido pelo cineasta brasileiro Hector Babenco com roteiro do próprio William Kennedy (o DVD importado, da Lion"s Gate, pode ser encomendado pela Amazon por US$ 12,99). Ironweed começa onde termina O Grande Jogo de Billy Phelan. Nele, o principal personagem, Francis Phelan, pai de Billy e ex-jogador de beisebol, volta à casa após 22 anos de ausência, motivada pela vergonha de ter provocado a morte do filho recém-nascido, Gerald, ao deixar cair acidentalmente o bebê. Alcoólatra, ele sai de Albany e passa a perambular pelas ruas junto a outros desajustados - como Helen, ex-pianista de classe alta e também dependente de álcool.

Hector Babenco conta que pegou casualmente o livro na estante da casa de amigos onde estava hospedado quando montava O Beijo da Mulher Aranha, em 1985. Foi o primeiro romance que leu em inglês, após várias tentativas com William Faulkner no original. "Fiquei possuído por essa coisa sombria que permeia a relação entre os personagens, por essa história de desagregação familiar causada pelo abuso de álcool na América". Foi esse viés trágico e a presença ostensiva da morte que fez Babenco, então enfrentando a notícia dolorosa de um câncer, batalhar por Ironweed.

Sem conhecer William Kennedy, o diretor ligou para sua casa em Albany. Sugeriu ao ficcionista que escrevesse o roteiro. Este revelou que os direitos estavam nas mãos de um produtor independente. O determinado Babenco não desistiu: convidou Jack Nicholson para interpretar Francis Phelan, que, por sua vez, chamou sua amiga Meryl Streep para fazer o papel de Helen. Isso antes mesmo de convencer o produtor Keith Barish a aplicar dinheiro num filme sobre alcoólatras, passado durante a Depressão, numa época triunfalista e dominada por yuppies, os anos 1980.

Solucionado o problema, Babenco, fiel ao estilo naturalista de Kennedy, foi buscar em áreas abandonadas de Albany o cenário de Ironweed. "Filmamos nos locais que serviram de modelo para as telas de Edward Hopper", conta o diretor. O resultado é um filme deslumbrante, fiel à paleta do pintor.