Conflitos constantes marcam famílias e gerações israelenses ''Meu filho luta pela
"Acabo de ouvir no noticiário que a base de Gavriel foi atacada", disse minha esposa Sarah na última terça feira, referindo-se ao nosso filho de 19 anos, membro de uma unidade de tanques do Exército de Israel instalada na fronteira de Gaza à espera da ordem de invasão. E acrescentou num tom de voz calmo: "Um soldado foi morto." Enviamos a Gavriel uma mensagem de texto, e em questão de cinco minutos ele nos telefonou, a salvo. Sarah se perguntou como as famílias sobreviviam às guerras antes dos telefones celulares.
Os políticos começaram a discutir a invasão terrestre enquanto nossos soldados aguardavam na fronteira, em meio à chuva e à lama. Tudo menos isso, eu disse à Sarah. Não queremos outra Guerra do Líbano, a qual, como em Gaza, teve início com uma impressionante exibição de poderio militar da Força Aérea israelense, mas terminou com o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, profetizando o fim iminente da "entidade sionista". Se não formos vitoriosos desta vez - um golpe certeiro contra o Hamas ou mesmo a deposição do movimento por completo - nossa capacidade de dissuasão vai erodir ainda mais, incentivando novos ataques com foguetes e encorajando um impulso jihadista por todo o Oriente Médio.
E então me dei conta do que estava pensando: como posso esperar por uma decisão que vai enviar meu filho à linha de combate? Esta é minha primeira experiência como pai de soldado, e agora, depois de 26 anos morando em Israel, finalmente compreendo a terrível responsabilidade de ser israelense. Acreditei que tinha me iniciado quando fui recrutado para o Exército como imigrante de 34 anos, em 1989. Mas talvez somente agora eu tenha me tornado um israelense completo.
?SENTIR A PRESENÇA?
Conheci Gaza durante a primeira intifada, no final da década de 80, quando os palestinos se revoltaram contra a ocupação. Fazia parte de uma unidade de reservistas que patrulhava os campos de refugiados em Gaza. Lá descobri que não existe ocupação benigna, coisa em que certa vez os israelenses quiseram acreditar, enganando a si mesmos. Nossa unidade não apenas prendia suspeitos de terrorismo como também arrancava pessoas de suas camas no meio da noite para obrigá-las a apagar pichações anti-israelenses e reunia inocentes depois de um ataque com granadas apenas para "fazer sentir nossa presença", em terminologia militar.
A maioria dos israelenses emergiu da primeira intifada convencida de que precisávamos fazer todo o possível para pôr fim à ocupação e garantir que nossos filhos não fossem transformados em mantenedores do desespero de Gaza. Foi por isso que inicialmente apoiei o processo de paz de 1993 em Oslo. E mesmo depois de ter ficado claro que Yasser Arafat e os outros líderes palestinos jamais tiveram a intenção de aceitar a legitimidade de Israel, apoiei a retirada unilateral de Gaza em 2005, simplesmente para nos arrancar daquela região, sabendo que não receberíamos em troca a paz.
E agora meu filho está combatendo em Gaza. O conflito que ele e seus amigos enfrentam é muito pior do que a experiência vivida pela minha geração em Gaza. Na nossa época, éramos confrontados com meras pedras e coquetéis molotov; meu filho enfrenta armamento antitanque fornecido pelo Irã - mais um preço que pagamos, além dos ataques com foguetes, pela retirada de Gaza, justamente como havia advertido a direita israelense.
Ainda assim, não me arrependo de ter apoiado aquela retirada. Se os israelenses estão unidos hoje, isto se deve ao menos em parte ao fato de estarmos combatendo a partir da nossa fronteira internacional. Meu filho e seus amigos têm uma vantagem crucial em relação à experiência da minha geração em Gaza: eles sabem que Israel está disposto a fazer o maior dos sacrifícios pela paz, removendo de seus lares milhares dos seus cidadãos e apoiando a formação de um Estado palestino. Nós não sabíamos disso.
Meu filho enfrenta a situação em Gaza sabendo que a miséria da região é agora imposta pelos seus próprios líderes. Ele sabe que o seu país estava preparado até mesmo para partilhar o seu bem nacional mais celebrado, Jerusalém, com o seu pior inimigo, Arafat, com o objetivo de evitar esta guerra. Isto confere a ele a confiança moral que será necessária para superar os dias vindouros. O rosto do meu inimigo em Gaza era o de um adolescente arremessando pedras; o rosto do inimigo de Gavriel em Gaza é o de um homem-bomba.
CIVIS COMO ALVOS
Nos últimos oito anos, Israel esteve combatendo numa única guerra de frentes móveis, passando dos atentados suicidas em Jerusalém e Tel-Aviv para os ataques com foguetes Katiusha contra cidades israelenses próximas à fronteira com o Líbano, e para ataques com mísseis Kassam contra cidades israelenses próximas à fronteira com Gaza. Essa guerra teve como alvo os civis, transformando a frente doméstica na principal frente de combate. E isso transformou a natureza do conflito, de uma luta nacionalista pelo Estado palestino para uma guerra santa contra o Estado judaico. Com exceção de um punhado de esquerdistas, a maioria dos israelenses reconhece que o conflito em Gaza é parte de uma guerra mais ampla que foi declarada contra a nossa existência e na qual devemos combater.
A maioria dos israelenses concorda a respeito de dois aspectos: não podemos conviver com um protótipo de Estado jihadista nas nossas fronteiras, e não podemos nos tornar ocupantes de Gaza novamente.
Enquanto isso, tento me convencer da segurança de Gavriel. Mesmo agora, e quem sabe especialmente agora, sinto que nossa família tem o privilégio de pertencer à história de Israel. Gavriel, neto de um sobrevivente do Holocausto, faz parte de um Exército que defende o povo judeu no seu território. Este pensamento nos conforta enquanto Sarah e eu esperamos pelo próximo telefonema.
* Yossi Klein Halevi é bolsista sênior do Centro Shalem em Jerusalém
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