Ir para o conteúdo
ir para o conteúdo
 • 
Você está em Notícias >
Início do conteúdo

''Contradições paralisam a Europa''

Para romancista de Às Cegas - livro que trata do fracasso das utopias -, continente enfatiza o indivíduo em vez da totalidade

07 de novembro de 2009 | 0h 00
Ubiratan Brasil - O Estadao de S.Paulo

Entrevista
Claudio Magris, escritor italiano

MUDANÇA: "Pela primeira vez temos a sensação concreta de que o mundo todo está envolvido em nossos atos"

TÉCNICA: "O que me custou muitos anos foi, principalmente, a busca do estilo, a música interior da narração"

IDENTIFICAÇÃO LITERÁRIA: "Uma obra central para mim, há vários anos, é o Grande Sertão, de Guimarães Rosa"

A escrita do italiano Claudio Magris tem uma formação particular: a fronteira entre realidade e ficção nem sempre é visível. Autor e tradutor, Magris foi alçado à condição de arauto quando seu livro Danúbio, lançado em 1986, antecipou os problemas que logo surgiriam entre os povos habitantes das margens do rio que dá título à sua obra, o que ocorreu com as guerras na Bósnia e no Kosovo.

Veja também:
Leia íntegra da entrevista no site

Fronteiras, aliás, tornaram-se meras questões geográficas para este professor de literatura alemã, ensaísta e ficcionista nascido em 1939 numa cidade singular. Trieste sempre foi alvo de disputas políticas, por causa de sua privilegiada localização, perto do Mar Adriático. Fundada pelos romanos, quando esses expandiam seu império no século 2º d.C., a cidade foi invadida pelos hunos, dominada pelos bizantinos e anexada pelos austro-húngaros até ser incorporada à Itália depois da 1ª Guerra Mundial.

Tal trajetória inspirou Microcosmos (1997), livro em que Magris traça um retrato abrangente de sua cidade natal e das regiões vizinhas, sob uma perspectiva histórica, cultural e filosófica. Novamente, a narrativa é detalhada e funde o universal ao singular, atravessando o tempo e o espaço.

A mesma perspectiva se faz presente no romance Às Cegas (tradução de Maurício Santana Dias, 384 páginas, R$ 59), publicado pela Companhia das Letras. Aqui, Magris apresenta uma síntese de seu pensamento - fruto de uma longa gestação (18 anos), o livro acompanha a vida de Salvatore Cippico que, aos 80 anos e internado em um sanatório de doenças mentais, rememora sua existência, que atravessou os horrores do século 20.

Militante do Partido Comunista italiano, Salvatore combateu na Guerra Civil espanhola e militou no exército iugoslavo durante a 2ª Guerra Mundial. Deportado para o campo de concentração de Dachau (Alemanha), acabou enviado, em seguida, para o gulag iugoslavo de Goli Otok. Nos anos 1950, emigra para a Austrália, onde seu delírio cria a figura do dinamarquês Jorgen Jorgensen que, um século antes, se autoproclamou rei da Islândia.

A partir do cruzamento dos dois personagens, Magris recupera os momentos mais dramáticos dos dois séculos passados, especialmente os que retratam a falência das utopias. Aclamado com o Prêmio da Paz conferido pelos editores alemães na última Feira do Livro de Frankfurt, em outubro, por seu trabalho pelo entendimento entre as culturas europeias, Claudio Magris respondeu por e-mail às seguintes questões do Estado, cujas respostas foram traduzidas do italiano por Ana Maria Capovilla.

Por que o senhor precisou de 18 anos para escrever Às Cegas?

De fato, trabalhei por muito tempo neste livro. Evidentemente, nos 18 anos que se passaram entre sua concepção e a publicação escrevi e fiz muitas outras coisas, no entanto Às Cegas foi sempre o projeto fundamental. Tive a primeira ideia a respeito desse romance em Antuérpia, no ano de 1988, durante uma viagem que fiz à Holanda para apresentar a tradução holandesa de Danúbio. Havia ficado profundamente impressionado com algumas esculturas femininas de madeira que vi por lá, dessas que ornamentavam a proa dos navios, por seu olhar voltado para o além, um olhar dilatado, como se elas pudessem ver catástrofes que os outros ainda não conseguem enxergar. Naquele momento - encontrava-me numa praça de Antuérpia -, tive a ideia de escrever alguma coisa sobre tais figuras, embora não soubesse muito bem o quê. Pesquisei, fui a vários lugares, visitei museus, coligi histórias e lendas. Escrevi inclusive um livro sobre elas, o qual não funcionou, contudo se tornou um importante reservatório de material para o que viria a ser Às Cegas.De alguma forma, percebi que aquelas figuras tinham a ver com uma ideia que eu guardava na mente havia algum tempo: a de ir a fundo na narração da terrível história de Goli Otok, que me obcecara durante anos e que já está presente, embora em meros acenos, em outros livros meus. É história terrível: logo após a 2ª Guerra Mundial, quando, depois das violências da Itália fascista contra os eslavos, chegara a hora da revanche destes contra os italianos, cerca de 300 mil italianos abandonam a Ístria e a Dalmácia, agora iugoslavas, e, deixando tudo para trás, vão para a Itália, numa viagem ao Ocidente. Ao mesmo tempo, cerca de 2 mil operários italianos de Monfalcone, uma pequena cidade perto de Trieste, realizam um êxodo em sentido oposto, uma viagem em sentido contrário, do Ocidente para o Oriente. Eram comunistas convictos que queriam ir para o país comunista mais próximo, a Iugoslávia, a fim de contribuir para a construção do comunismo.

O que aconteceu com eles?

Quando, em 1948, Tito rompe com Stalin, esses militantes passam a ser considerados pelo líder iugoslavo como perigosos e suspeitos, possíveis agentes stalinistas; por sua vez, Tito torna-se, para eles, um traidor. Deportados para duas belíssimas e terríveis ilhotas no norte do Adriático, Goli Otok (Ilha Nua, Ilha Careca), e Sveti Grgur (São Gregório), são submetidos a todos os sofrimentos possíveis, perseguições e torturas, e resistem heroicamente em nome de Stalin - isto é, em nome de alguém que, se tivesse vencido, teria transformado o mundo todo num gulag para nele aprisionar homens livres e bravos como aqueles militantes. Tais homens acabaram sendo esquecidos por todos. Seu destino sempre foi uma obsessão para mim, por se tratar de pessoas que sempre estiveram no momento errado do lado errado, que combateram por uma causa que eu não considero justa, porque não acredito que Stalin significasse a liberdade, mas com uma extraordinária capacidade de se sacrificarem por um valor universal, pelo bem da humanidade, um legado moral que devemos tornar nosso, mesmo que não compartilhemos da fé em sua bandeira. O protagonista do meu romance, um personagem evidentemente inventado, é uma daquelas figuras. Comecei a escrever este romance de modo linear, tradicional, no entanto, não funcionou. E não funcionou porque numa obra literária a forma deve se identificar com o conteúdo, o estilo deve ser organicamente coerente com a história e não é possível contar esta história inaceitável, quebrada, delirante, que explode por todos os lados, de um modo tranquilo e harmonioso. O que me custou muitos anos foi, principalmente, a busca inconsciente do estilo, ou seja, da música interior da narração.

Como o senhor vê a comparação de sua obra com a de Hermann Melville e a de Joseph Conrad?

Evidentemente, não acredito que seja possível falar de uma comparação, porque Melville e Conrad são mestres absolutos, aos quais seria ridículo que eu quisesse me comparar. São autores que foram e são muito importantes na minha vida, que li e reli e que sinto grandiosamente afins, por muitas razões: a relação entre narrar a vida e julgar, o confronto com o mal e, acima de tudo, o grande tema do mar, do mar que está presente em tudo o que escrevo e que está presente de maneira peculiar em Às Cegas, no qual suponho que se encontrem certamente ecos melvillianos e conradianos. Sim, esses dois escritores estão extremamente presentes na minha existência, antes mesmo que na minha literatura. Outra grande presença, que há anos é ativa e central para mim, é a do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, outro dos livros mais importantes, das maiores obras que eu li e que, para mim, não fazem parte apenas dos meus conhecimentos literários, mas, em primeiro lugar, da minha vida e do meu sentido do mundo.

Quais as obrigações do romancista para com seus personagens e seus leitores?

Trata-se de duas obrigações, de dois deveres diferentes. Em relação aos personagens em si, o escritor deve ser fiel à coerência do caráter dos personagens, à sua maneira de ser, sem querer pôr em sua boca palavras e pensamentos que pertencem a ele, e quem sabe, são mais simpáticos e mais próximos ao autor, do que os dos seus personagens, mas que se tornariam falsos. Um personagem deve ter uma existência autônoma, embora obviamente reflita muitas coisas de quem o criou. Quanto aos leitores, o autor tem o dever primeiro do respeito: ele deve considerá-los como interlocutores, como seus pares. O escritor não é o cicerone que pega o leitor pela mão levando-o a admirar os tesouros da humanidade e da sensibilidade e da inteligência dele próprio enquanto autor, explicando tudo e facilitando a caminhada. O encontro entre autor e leitor é, como todo encontro, uma aventura, na qual é preciso ser simplesmente o que se é.

Na Feira do Livro de Frankfurt, o senhor disse que era necessário um "estilo europeu". Como poderia a Europa pensar de maneira "universal", combinando liberdades individuais com o bem público?

Acho que um Estado europeu é necessário porque hoje os problemas deixaram de ser nacionais, italianos ou franceses ou alemães, e se tornaram europeus. Uma crise financeira ou econômica que atingisse de maneira desastrosa um país, repercutiria imediatamente em todos os outros; em suma, vivemos numa realidade que já é europeia, e, a uma realidade objetiva, concreta, deve sempre corresponder uma realidade institucional, neste caso, um Estado, obviamente federalista, descentralizado. Não entendo muito bem a pergunta quanto à conciliação entre liberdades individuais e bem público; não existe nenhuma contradição entre estes dois termos, porque não existe um bem público sem liberdades individuais nem vice-versa. Por outro lado, a Europa como um todo tem uma tradição que enfatiza o indivíduo e não a totalidade, mas um indivíduo concebido como "animal social", cuja vida está portanto ligada à dos outros, e não como "cowboy" solitário que cria o seu rancho sozinho e somente para si mesmo, e não se interessa por aquilo que acontece no rancho do vizinho. Quanto à universalidade dos valores, cabe à Europa a grande e árdua missão de abrir-se para as novas culturas dos novos cidadãos que para ela convergem de todas as partes do mundo, a fim de enriquecê-la com sua diversidade. É preciso que procuremos discutir sobre nós, europeus, e tratemos de nos abrir ao diálogo máximo possível com outros sistemas de valores. Poucos valores, entretanto valores claros, como a igualdade dos direitos para todos os cidadãos, independentemente das diferenças de sexo, religião ou etnia. Infelizmente, neste momento a Europa parece paralisada por tantas contradições. Eu me considero um patriota europeu, e espero que um dia cheguemos a um Estado europeu, mas evidentemente não deixo de reconhecer as dificuldades deste processo.

Já se falou muito da mudança do mundo após o 11 de setembro. Como o senhor vê tais transformações?

O mundo não mudou apenas por causa do que aconteceu em 11 de setembro em Nova York; mudou porque oito anos, na História que estamos vivendo, correspondem a quase dez vezes mais do que esse lapso de tempo no passado, no que se refere às transformações, às mudanças em todos os campos, da situação política e econômica às descobertas da engenharia genética e à explosão da miséria assustadora em várias partes do mundo. Os acontecimentos de 11 de setembro, à parte o choque que todos sentimos ao ver atingida em seu coração a maior potência mundial, foi um ato de guerra, de uma guerra que se trava hoje com novas formas, mas o mesmo aconteceu também em Bhopal, com o vazamento de toneladas de isocianato de metila, que provocaram muito mais mortes do que 11 de setembro. Guerra é o tráfico de órgãos arrancados de crianças assassinadas para este fim; hoje, a guerra "não tem limites". A grande mudança foi o fato de que hoje, pela primeira vez na História, temos a sensação física, concreta, ora excitante ora estimulante, ora inquietante ora estarrecedora, de que estamos envolvidos no mundo e de que, em todos os nossos atos, envolvemos o mundo inteiro. Não podemos mais considerar - e este é um grande progresso - nada nem ninguém, nenhum país e nenhum povo, como algo distante que não tem nada a ver conosco. Tudo isto comporta mudanças enormes; enormes esperanças e enormes perigos. Pela primeira vez, vivemos concretamente uma época universal, mas com um sentido de profunda ameaça.

Trecho


A História é uma câmara de reanimação e é fácil errar a dose e mandar para outro mundo os pacientes que se queria salvar. (...) Quando você fala e tudo vem à tona, as lembranças, os horrores, o medo, o bafo da prisão, o ácido do estômago, você tem a ilusão de que aquelas palavras são algo diferente das cicatrizes que sentia no rosto, do obscuro pulsar do corpo que se consome e cuja consumição elas expressam, das silenciosas catástrofes que ocorrem nas células e entre os glóbulos sanguíneos.