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'Coreano primeiro trabalha. Depois vive'

Pesquisador explica a influência cultural nas relações de trabalho no país

08 de fevereiro de 2010 | 0h 00
Paula Pacheco - O Estadao de S.Paulo

A tradição de obediência hierárquica no mundo corporativo coreano tem clara influência da filosofia de Confúcio, que legitimava a submissão aos superiores. Essa relação começou a ficar clara com a migração mais acentuada da população rural para as cidades, entre os anos 40 e 50, e prevalece até hoje. Aquela era uma população mais acostumada ao trabalho pesado e sem a presença de figuras como a dos sindicatos.

O país passou por uma série de evoluções e suas grandes empresas, como LG, Hyundai e Samsung, se globalizaram. Passadas algumas décadas, o choque cultural persiste, diz o especialista em Coreia do Sul, Gilmar Masiero, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP e doutor em economia. "Os coreanos têm assimilado normas de conduta internacionais, mas há resíduos das relações de trabalho do país", diz.

Masiero explica: "Aqui o brasileiro vive e trabalha. Na Coreia a prioridade é outra. O coreano primeiro trabalha, depois vive". Mesmo com a atual renda per capita, o emprego no país ainda é muito disputado. E há convenções sociais que condenam os desempregados.

Até pouco tempo atrás, segundo o professor, a jornada de trabalho dos coreanos chegava a 60 horas semanais. Hoje, oficialmente, é de cerca de 48 horas. Mas se trabalha muito mais do que isso graças às prolongadas horas extras.

Em suas pesquisas e visitas ao país, Masiero comprovou que, de fato, segundo a cultura coreana, é normal que chefes se expressem aos gritos com os subordinados. Em situações extremas, como manifestações grevistas, o coreano pode chegar ao confronto físico. "As relações são mais duras", resume. O professor avalia que algum tipo de choque cultural sempre vai existir, mas argumenta que isso tem a ver com o baixo nível de compreensão dos nativos.

"O brasileiro não entende o coreano e seus padrões, diferentes dos vistos no Ocidente. E é bom lembrar que enquanto eles gritam com os funcionários, o Brasil também vive situações inadmissíveis, como os casos de trabalho escravo", salienta. Além disso, diz, alguns empregadores brasileiros têm um comportamento semelhante ao coreano ao tratar os empregados aos gritos e submetê-los a todo tipo de assédio moral.