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Crise expõe fracasso de modelo islâmico

23 de junho de 2009 | 0h 00
Reuel Marc Gerecht, The New York Times* - O Estadao de S.Paulo

O que quer que aconteça no Irã como consequência das eleições fraudulentas realizadas no dia 12, há algo bastante claro: não estamos apenas testemunhando uma fascinante disputa pelo poder entre homens que se conhecem intimamente há 30 anos, mas o desenredar de uma ideia religiosa que moldou o crescimento do fundamentalismo islâmico moderno desde a criação da Irmandade Muçulmana em 1928 no Egito.

A Revolução Islâmica no Irã abarcou duas ideias incompatíveis: a lei de Deus - interpretada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini - seria soberana, e o povo do Irã teria o direito de eleger representantes para encampar e proteger seus interesses. Enquanto Khomeini estava vivo e o Irã estava em guerra com o Iraque, a tensão entre teocracia e democracia não se tornou aguda.

Entretanto, após a morte dele, em 1989, a promessa democrática da revolução começou a ganhar terreno. Na campanha presidencial de Mohammad Khatami, em 1997, esta promessa explodiu e paralisou brevemente o sucessor de Khomeini, o aiatolá Ali Khamenei, e a elite teocrática. A vontade de Deus e os anseios do povo não eram mais compatíveis.

Para assombro de Khamenei, que ainda é líder supremo, Mir Hossein Mousavi - candidato "derrotado" nas eleições arranjadas - tornou-se um novo Khatami, com o diferencial de ser muito mais poderoso do que este. Apesar de não contar com as mesmas credenciais reformistas, Mousavi é um político muito mais duro que Khatami. E as frustrações do mandato fracassado do ex-presidente Khatami cresceram exponencialmente numa nova geração que demonstra menor respeito pelos mulás e pela ideologia revolucionária.

COLAPSO

Ainda assim, nos protestos atuais não estamos testemunhando apenas a conclusão do primeiro estágio do experimento democrático iraniano, mas o colapso dos alicerces estruturais de toda a abordagem islâmica para a soberania política moderna. Tanto para os muçulmanos tradicionais quanto para os fundamentalistas, o imperativo categórico do Islã - inspirar o bem e proibir o mal - está se transformando.

Este imperativo é repetido várias vezes no Alcorão. Historicamente, ele é interpretado como forma de limitar o lado corruptível, rebelde e libidinoso da alma humana. É também o principal motivo teológico pelo qual Khamenei tentará impedir um triunfo democrático no Irã, já que uma verdadeira democracia permitiria que certo e errado fossem determinados pelos homens, e não por Deus e seus fiéis guardiães, os mulás.

Os ocidentais precisam compreender a magnitude do que está se passando na República Islâmica. A revolução do Irã chocou o mundo islâmico. Foi a primeira tentativa dos muçulmanos militantes de provar que "o Islã possui todas as respostas" - ou ao menos um número de respostas suficiente para administrar um Estado moderno.

Mas a experiência fracassou. A chamada revolução de 12 de junho é a resposta iraniana para a esperança de que o mundo possa ser refeito à imagem da comunidade virtuosa do profeta Maomé. Milhões de iranianos disseram nesta eleição não querem participar do sonho de Khamenei, que se transformou num pesadelo.

Não importa o que Khamenei faça, esta mensagem não mudará. O que pode parecer ainda mais surpreendente é o fato de tantos nomes de destaque da primeira geração de revolucionários terem se aliado a Mousavi.

Não sabemos ao certo o que Mousavi pensa da democracia, mas eu apostaria que ele está disposto a conferir ao povo um poder maior do que aquele estipulado por Khatami. E ainda que Mousavi não seja o reformista ideal - foi primeiro-ministro na década de 80 - , ele se encontra cercado pelos melhores e mais brilhantes cérebros que o Irã tem. O regime perdeu praticamente todo o capital intelectual do país. Mesmo entre o clero, os melhores pensadores - aqueles sobre os quais os iranianos fiéis conversam, como o grande aiatolá Hossein Ali Montazeri - distanciaram-se do aiatolá Khamenei.

Até agora, a República Islâmica desfrutou de grande popularidade entre os árabes devotados. Conforme os iranianos conheceram a teocracia em primeira mão, o secularismo tornou-se cada vez mais atraente. O Irã forma atualmente clérigos brilhantes que defendem a separação entre Estado e religião como modo de salvar a fé da corrupção pelo poder.

De fato, os iranianos estão a ponto de transformar a imposição ética do Alcorão num mandamento democrático: nada de bom pode ser inspirado sem o voto do povo.

Os clérigos iraquianos defensores da democracia tentam fazer o mesmo, mas os iranianos, muito avançados no seu pensamento sobre a relação entre religião e Estado, serão certamente mais ousados.

Quer fosse sua intenção ou não, Mousavi provavelmente deu início à contagem regressiva para o fim da República Islâmica.

*Reuel Marc Gerecht é acadêmico da Fundação para a Defesa das Democracias e trabalhou como especialista em Oriente Médio para a CIA, o serviço secreto americano