Dados põem bioma na agenda do clima
Análise
Já era hora de o governo prestar atenção - de verdade - no desmatamento do cerrado. Os dados de emissão de carbono divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) colocam o bioma de braços dados com a Amazônia na lista de prioridades da agenda climática brasileira.
Quando chega à atmosfera, 1 tonelada de carbono é 1 tonelada de carbono. Seu efeito de aquecimento é o mesmo, não importa se ela foi emitida pela queima de uma árvore de 20 metros na Amazônia ou de uma de 5 metros no cerrado. Até agora, porém, as únicas emissões por desmatamento que eram levadas em conta nas discussões sobre mudanças climáticas eram as da floresta tropical.
O cerrado, valorizado muito mais como uma fronteira agrícola a ser explorada do que como um tesouro biológico a ser preservado, nunca foi prioridade nas políticas públicas de pesquisa e conservação. Consequentemente, faltam dados científicos básicos sobre o bioma, necessários para entender sua biologia, seu clima e seus serviços ambientais - que incluem, entre muitas outras coisas, a estocagem e reciclagem de carbono.
Os novos dados do MMA começam a preencher essa lacuna, mostrando que o desmatamento do cerrado pode ser tão prejudicial para o clima quanto o da Amazônia. Portanto, precisa ser combatido com o mesmo empenho.
Não há dúvida de que as medições do ministério serão revisadas e refeitas por acadêmicos muitas vezes nos próximos anos. É possível que mudem bastante nesse processo. Calcular as emissões de carbono do cerrado é ainda mais complicado do que na Amazônia, porque sua cobertura vegetal varia imensamente no tempo e no espaço. E, mesmo na Amazônia, os números são difíceis.
Seja como for, o MMA dá um passo importante ao colocar o cerrado no mapa das mudanças climáticas. O Ministério da Ciência e Tecnologia também faz suas contas para incluir o bioma no novo inventário de emissões do País, que deverá ser concluído até o fim do ano. Agora, quando o Brasil falar de sua contribuição para o aquecimento global, não poderá mais falar só da Amazônia. Terá de falar do cerrado também.
O mesmo vale para o setor produtivo, que hoje concorda em não comprar soja nem carne produzida em áreas desmatadas da Amazônia, mas não quer nem ouvir falar de restrições à produção no cerrado. Terá de ouvir, agora.
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