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Davos pede investimentos no Haiti

Líderes mundiais manifestam preocupação com retomada da atividade econômica no país arrasado por terremoto

29 de janeiro de 2010 | 0h 00
Jamil Chade e Fernando Dantas - O Estadao de S.Paulo

A Organização das Nações Unidas (ONU) admitiu ontem que "centenas de milhares de pessoas" no Haiti ainda não receberam nenhuma ajuda humanitária, mais de duas semanas depois do terremoto que arrasou o país. "As necessidades continuam a superar a resposta da comunidade internacional", alertou um boletim interno da ONU.

Apesar disso, a vulnerabilidade haitiana não deve ser vista como um impedimento, mas como uma oportunidade para os investimentos estrangeiros, disseram ontem líderes que participam do Fórum Econômico de Davos, na Suíça.

Em Porto Príncipe, os sobreviventes da tragédia ainda esperem pela distribuição de água, alimentos, abrigos e fornos para cozinhar. Nos últimos dias, a ONU constatou um novo aumento nos preços dos alimentos.

Outro problema detectado no âmbito econômico pela ONU é que o congestionamento dos carregamentos de assistência estão impedindo o trânsito de bens e produtos, freando a retomada da atividade comercial. "Todos os pontos de entrada do país estão sendo usados para a ajuda humanitária", diz comunicado da entidade.

A preocupação com a retomada da atividade econômica no país caribenho também foi evidente em Davos. "O Haiti é um grande caso para se investir", afirmou Denis O''Brien, empresário irlandês do ramo de telecomunicações com investimentos no Haiti. Ele acrescentou que a população do país é muito jovem, e que os "administradores haitianos estão entre os melhores do mundo".

A declaração de O"Brien foi feita durante um painel do qual participaram o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim.

Clinton disse que até o megainvestidor George Soros estava disposto a investir no Haiti, e notou que a ajuda a países pobres depois de catástrofes naturais ou provocadas pelo homem pode ser muito efetiva: o PIB per capita de Ruanda aumentou quatro vezes depois do genocídio em 1994.

"É uma oportunidade para imaginar o futuro do povo haitiano, construir o que eles querem, e não o que era (anteriormente ao terremoto)", disse Clinton.

ACORDO COM EUA

Amorim, por sua vez, propôs um acordo com os Estados Unidos para flexibilizar as exportações de produtos fabricados no Haiti, como forma de incentivar os investimentos estrangeiros e a reconstrução do país.

O objetivo é discutir com os EUA a concessão do tratamento livre de tarifas e cotas (duty free e quota free) para mercadorias produzidas no Haiti. Pelo mecanismo, os produtos feitos no Haiti por empresas brasileiras poderiam ser exportados para os Estados Unidos com maior flexibilidade.

O Brasil aplicaria então a reciprocidade, liberando a entrada no território nacional de mercadorias feitas por companhias americanas no país da América Central. "Mas, para isso, os EUA precisam flexibilizar as regras de origem", disse Amorim. "Nós estamos dispostos a flexibilizar e dar reciprocidade", acrescentou.

Em outra frente, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou por unanimidade, ontem, a partir de uma iniciativa brasileira, uma resolução que pede que o apoio ao Haiti continue e os direitos humanos da população sejam colocados no centro dos programas.

Originalmente, o Brasil pedia para que uma missão governamental fosse enviada ao Haiti. Mas o governo de Porto Príncipe rejeitou a proposta brasileira e a referência à missão foi retirada do documento. O texto ainda reafirma a soberania do Haiti e garante sua integridade territorial, além de estipular que o governo local deve permanecer no centro das decisões políticas sobre a reconstrução do país.