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De pneu abandonado a material para bolsas

22 de setembro de 2009 | 0h 00
Roxane Regly - O Estadao de S.Paulo

Preocupada com o absurdo despejo de câmaras de ar e pneus em terrenos e rios, a estilista e designer Renata Campos utiliza há quatro anos esse material para produzir bolsas e acessórios em seu ateliê na cidade de Limeira, no interior de São Paulo.

A iniciativa de Renata é pioneira na região e virou negócio, a empresa Renata Campos Design Sustentável. ''Conheço apenas um estrangeiro que produz algo semelhante'', conta a designer, que segue atenta às questões ambientais. ''Eu me preocupo muito com a geração de resíduos e a utilização de matéria prima. Cada um deve fazer a sua parte, e não ficar apenas esperando os outros.''

A criação do ateliê teve início quando a estilista percebeu a semelhança da câmara de ar com o couro. Atualmente, produz em média 100 peças por mês. ''São objetos feitos manualmente e totalmente artesanais, revendidos em lojas de Limeira e enviados por uma distribuidora a outras localidades'', explica Renata.

Pneus e câmaras de ar, segundo o biólogo Rogério Mesquita, quando jogados em locais públicos ou próximos a nascentes, contaminam o solo e causam a emissão de gases tóxicos. ''O tempo de decomposição desses materiais é indeterminado. Por isso, a contaminação é constante'', explica.

No início da produção, Renata percorria borracharias em busca do material. Hoje em dia, ela o obtém diretamente de uma empresa de coleta e reciclagem de resíduos.

De acordo com a Prefeitura de Limeira, há uma pessoa cadastrada para recolher esses resíduos nas 120 borracharias do município, já que é proibido o despejo de pneus e câmaras de ar no aterro sanitário da cidade. São recolhidos mensalmente de 15 mil a 20 mil pneus, mas apenas 100 em cada 35 mil contêm a câmara de ar. Todos os pneus e câmaras recolhidos são destinados a uma empresa que realiza a reciclagem para reutilização.

Segundo o gerente da agência em Limeira da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), Adilson José Rossini, é preciso um descarte adequado para o material. ''Para isso, há uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente obrigando a reciclagem do material pelas empresas produtoras'', explica. É a Resolução n.º 258/99, que determina em seu artigo 1.º que ''as empresas fabricantes e as importadoras de pneumáticos ficam obrigadas a coletar e dar destinação final, ambientalmente adequada, aos pneus inservíveis''.

Rossini destaca ainda que, em casos de denúncias de despejo do material no município, o responsável é advertido e, se reincidir no erro, recebe multa equivalente a pelo menos R$ 7.925.

Por sua vez, Renata preocupa-se também em seguir as normas de gestão ambiental relativas à produção de suas bolsas e acessórios. ''Utilizo produtos biodegradáveis para a lavagem da câmara de ar e destino os refugos da produção para a mesma empresa da qual compro o material'', explica.

Além de preservar o meio ambiente, Renata encontrou a possibilidade de ter um negócio lucrativo e pensa, inclusive, em exportá-lo. ''As pessoas estão começando a se conscientizar de que precisamos deixar o comodismo de terceirizar a culpa. Todos devem trabalhar para garantir um mundo melhor para as gerações futuras'', explica a designer.

* Roxane Erendira Regly é aluna da Isca-Limeira