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Destaques argentinos e um Soderbergh que parece Coen

Chuva, O Segredo dos Seus Olhos e O Desinformante apresentam, cada um à sua maneira, propostas bem interessantes, enquanto, na Première Brasil, o mistério toma conta de Insolação, com Paulo José

01 de outubro de 2009 | 0h 00
Luiz Carlos Merten, RIO - O Estadao de S.Paulo

Confiem no mistério, diz Paulo, interpretado por Paulo José, um dos protagonistas de Insolação, o longa de estreia do diretor de teatro Felipe Hirsch - em parceria com Daniela Thomas -, atração de anteontem na Première Brasil. O mistério tem sido convocado, embora nem sempre esteja presente nos filmes brasileiros aqui no Festival do Rio. Está no de Hirsch e Daniela, que é, como se diz, uma pedreira, mas oferece ferramentas para que o espectador desenrole o fio de sua reflexão sobre a solidão e o (des)amor em Brasília - cidade curiosamente sem esquinas -, mas não tanto no de Suzana Amaral. No debate após a projeção de seu filme, no domingo, a diretora falou no clima quase místico que se estabelece nos seus sets, graças a uma extrema cumplicidade com os atores.

Hotel Atlântico é um filme de ruptura para Suzana, sendo a mais evidente de suas mudanças a substituição do universo feminino pelo masculino. O problema é que o mistério desta vez não se instalou. Ele está mais presente nos filmes de dois diretores argentinos que foram entrevistados pelo repórter do Estado. Paula Hernandez dirige Chuva, que foi premiado - melhor fotografia - em Gramado. Curiosamente, Paula trabalhou com o outro argentino na televisão. Ela dirigiu um dos episódios de Vientos de Água, minissérie de Juan José Campanella, que o próprio realizador de O Filho da Noiva e Lua de Avellanada considera seu melhor trabalho. Campanella talvez esteja sendo duro consigo mesmo. O Segredos dos Seus Olhos, em exibição no Rio, é forte.

Chuva conta a história desse casal que o imprevisto une por um par de noites, numa Buenos Aires chuvosa. Ela mora no carro, após romper com o parceiro. Ele está de passagem. É casado e mora fora do país. Um incidente faz com que entre rapidamente no carro da mulher, parado num congestionamento. "O que me interessava era o inesperado", diz a diretora. Paula partiu dos personagens, das suas angústias e sensações e chegou à ideia da chuva como componente dramático para acentuar a solidão e o isolamento. A cena do congestionamento, no túnel, envolveu muito planejamento e, na filmagem, virou uma verdadeira operação de guerra. "Mas era o que me fascinava - o desafio", explica a jovem diretora, que tem outro longa, anterior, no currículo, Querencia, e também é uma das mais requisitadas realizadoras de comerciais da Argentina.

Caro para os padrões locais - custou mais de US$ 1 milhão -, Chuva não teve na bilheteria o retorno esperado. É intenso, bem interpretado e o Kikito de fotografia recompensa um trabalho que é visualmente elaborado. Paula busca o inesperado, o acaso que irrompe nas relações, mas é no mínimo curioso o paradoxo. Seu filme revela um desejo de controle - da imagem como da mise-en-scène. Campanella, por sua vez, gosta de dramas intimistas que lhe permitam contextualizar mudanças importantes na vida argentina. A história é a desse oficial de Justiça que se debruça sobre o próprio passado, para escrever um livro, e revisa escolhas durante os anos de chumbo da ditadura. Campanella trabalha de novo com Ricardo Darin, um ator "estupendo", como diz. Atualmente radicado nos EUA, ele realiza a série Law & Order: Special Victims Unit. Por sua experiência, Campanella diz que, nos EUA, cada vez mais ideias interessantes são desviadas do cinema e vão parar na televisão. Ele teria adorado participar de um debate sobre TV de sucesso que ocorreu domingo, no pavilhão do festival.

Há aqui um Steven Soderbergh, aliás, dois. Além de Che 2 - A Guerrilha, já em cartaz em São Paulo, O Desinformante traz Matt Damon numa comédia de erros, como se fosse um anti-herói nos moldes dos irmãos Coen. O personagem vira informante do FBI num processo de chantagem contra cartel que controla o preço do milho. Damon passa o filme mentindo e termina por se enrolar na própria falsidade, mas o espectador torce por ele. É a herança de Che na obra do diretor - Damon pode ser atrapalhado, mas é "contra" o sistema e isso soma pontos na visão de Soderbergh.