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Diálogos possíveis

Especialistas analisam a atual produção artística do Oriente Médio

24 de outubro de 2009 | 0h 00
Stephen Deuchar - O Estadao de S.Paulo

Uma consequência quase inesperada dos atentados de 11 de setembro e suas repercussões políticas no Afeganistão e Iraque tem sido a compreensão, que se desenvolve continuamente, da arte e da cultura do Oriente Médio pelo mundo ocidental. Graças à TV, as imagens de zonas de batalha, além das notícias, incidentes e atrocidades divulgados regularmente, a geografia e a política da região começaram a ser mais bem compreendidas (Quem hoje admite confundir Irã com Iraque, como muita gente na Grã-Bretanha negligentemente fazia há uma década?). Entretanto, iniciativas para se criar pontes entre as duas culturas, por parte do Conselho Britânico e outras agências do governo abriram novos canais de comunicação para compensar o aumento das tensões políticas.

No mundo da arte profissional isso tem ajudado a nutrir um despertar gradativo para a variedade e qualidade do trabalho feito em regiões distantes do seguro e tradicional eixo Europa-Estados Unidos, com base no qual a história e o progresso da arte internacional sempre foram explicados. Quando a Tate Gallery anunciou recentemente a realização de uma conferência sobre arte contemporânea no Oriente Médio, todas as entradas foram vendidas imediatamente - e o evento acabou precisando ser transferido para um local mais amplo na Tate Britain e Tate Modern, de modo a atender à demanda. Isso revela que em Londres há uma sede para se conhecer melhor o ambiente artístico do Oriente Médio e um desejo evidente por parte de artistas, curadores e comentaristas médio-orientais de trazer seu trabalho e temas para debate para um contexto europeu.

O livro A Arte Contemporânea no Oriente Médio, compilado e editado por Paul Sloman (Ed. Black Dog, 217 págs.), é uma resposta oportuna a essas aspirações, trazendo um estudo confiável e cuidadosamente preparado da arte nova e mais recente de uma dezena de países predominantemente muçulmanos, estendendo-se do Afeganistão até o Marrocos.

Na verdade, o Marrocos foi misteriosamente excluído do mapa da região incluído na página de abertura do estudo, embora discussões e aflição quanto ao que é, e não é, "Oriente Médio" seja comum entre artistas e curadores por aqui. (Certamente isso foi debatido nas reuniões da Tate e foi um tema recorrente nas diversas apresentações da arte médio-oriental na Bienal de Veneza este ano.) Claro que nem todos gostarão da ideia de uma categoria de arte definida por uma região geográfica, ou de uma categoria diversa e difusa de arte. Artistas de grande estatura como Mona Hatoum ou Shirin Neshat resistem há muito a esse tipo de camisa de força e preferem, em vez disso, operar a partir de um cenário bem internacional, não obstante a inflexão médio-oriental de grande parte dos temas que exploram.

A ideia de A Arte Contemporânea do Oriente Médio seria oferecer apenas uma fatia de cultura oriental exótica para consumo do Ocidente, em vez de uma análise da boa arte em seus próprios termos? Felizmente, Paul Sloman e seus colegas estavam alertas a esse perigo e, de fato, se defrontaram com ele diretamente, dedicando ao livro Orientalismo,de Edward Said (1978), e à controvérsia que provocou, várias páginas, e chamando atenção para o fato num dos apêndices. Embora isso possa parecer implicar que a proposta central de Said - de que o interesse do Ocidente pela cultura do Oriente é uma forma de imperialismo - inevitavelmente afeta e direciona o nosso envolvimento com toda a arte exposta no livro, o autor procura dar ao leitor informações concisas para ele entender o contexto intelectual dentro do qual "relações culturais" desse tipo são buscadas.

Os capítulos escritos por Nat Muller, Lindsey Moore, TJ Demos e Suzanne Cotter exploram alguns dos temas centrais que pautam a produção e a recepção de grande parte da arte que trata o livro: guerra, deslocamentos de populações, exílio, questão do gênero, autoridade. O resumo do mundo da arte médio-oriental, por Nat Muller, quando aborda o Líbano, Egito e Palestina, é bem ponderado e minucioso, e a análise feita por Lindsey Moore do artista franco-argelino Zineb Sedira é comovente e academicamente rigorosa - o que é muito raro na crítica de arte contemporânea. Desire in Diaspora (Desejo na Diáspora), de TJ Demos, discute o famoso projeto de arte de Emily Jacir, de 2003, Where We Come From (De Onde Viemos), em que ela perguntou a muitos palestinos no exílio: "Se você pudesse fazer alguma coisa para você, em alguma parte na Palestina, o que seria?" e depois registrou, por meio da fotografias, filme e outras formas de expressão, as respostas a pedidos que fez para as pessoas indagadas - por exemplo, colocar flores no túmulo da mãe, em Jerusalém. Cotter, curador de Ouf of Beirut (Fora de Beirute), importante exposição no Museu de Arte Moderna, em Oxford, em 2006, toma o trabalho de Walid Raad e Akram Zaatari como itinerário para compreender um pouco das preocupações de artistas que trabalham no Líbano, que foi sempre um centro de arte sofisticado, mas perpetuamente interrompido.

Cada ensaio examina a fundo, sem dificuldade, uma pequena área, em vez de tentar fazer um levantamento geral e o resultado inevitavelmente deixa de revelar a plena variedade e textura da arte do Oriente Médio. Mas a seção central subsequente, em que exemplos do trabalho de 45 artistas são ilustrados e, em alguns casos, até analisados, aludem, de modo emocionante, à diversidade, qualidade e poder latente de grande parte do trabalho que vem sendo produzido hoje a partir de situações políticas e geográficas muito distintas. A fotografia e as esculturas de Shadi Ghadirian, do Irã; as pinturas em bordado, gel ou acrílico de Ghada Amer, nascida no Egito, hoje trabalhando nos Estados Unidos; a arguta mostra da artista Arwa Aboun, líbia de nascimento que vive no Canadá, Allah Eye Doctor Chart (Mapa do Doutor Alá), uma provocação sobre visão e crença; os emocionantes 20 Targets (20 Alvos), da londrina palestina Laila Shawa.

Algumas omissões podem causar surpresa - onde está Mitra Tabrizian, que teve uma exposição na Tate Britain no ano passado? - mas a seleção no geral é inteligente e equilibrada, mesmo incorporando o trabalho de Yehudit Sasportas quando, dado o tom prevalecente, poderia parecer simplesmente que a intenção era mostrar que Israel não existe.

Arte sempre foi um instrumento político e por essa razão o trabalho pioneiro de Sloman - na verdade é o primeiro do tipo - tem uma influência potencial que vai muito além do que os curadores e colecionadores em princípio pretendiam, no mínimo pela sua determinação em marcar o território de maneira clara e sem apelos à emoção, de modo que seja facilmente digerido por qualquer pessoa não especializada nesse campo.

A Arte Palestina - De 1859 Até os Dias Atuais, de Kamal Boullata (Ed. Saqi, 368 págs.; prefácio de John Berger) é uma publicação não menos intensa, com uma abordagem quase oposta. Anunciado como o "primeiro estudo de um conhecedor da arte palestina", a narrativa historicamente minuciosa e às vezes angustiante das tentativas de artistas para se desenvolver em condições muito opressivas chega a rivalizar com o impacto da arte em si, incluindo mesmo os abstratos geométricos que o próprio Boullata vem produzindo desde os anos 80.

É algo raro e emocionante descobrir um livro de arte tão repleto de imagens visuais prementes e convincentes cuja linguagem e estratégias não são familiares ao olho ocidental complacente. E é reconfortante sentir que a força de grande parte desse trabalho deriva e ao mesmo tempo aponta para a própria cultura palestina, e não se integra no acanhado discurso Leste-Oeste que tanto preocupou Edward Said. Nesse sentido, esse livro representa mais um avanço na compreensão internacional da história e aspiração palestinas, mas através do olhar do artista.

A arte do Oriente Médio é de grande importância neste momento e não só porque é muito boa. Esses dois livros são prova disso.

Stephen Deuchar é diretor da Tate Britain