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Dilma vai a Washington

06 de abril de 2012 | 3h 07
Paulo Sotero - O Estado de S.Paulo

Os presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama têm boas notícias a compartilhar, mas também importantes diferenças a acertar quando se reunirem na Casa Branca, na segunda-feira. A líder brasileira chega para a conversa com sua autoridade consolidada e a popularidade reforçada em casa por seu desempenho no primeiro ano do governo, a despeito da desaceleração do crescimento econômico e dos sucessivos escândalos de corrupção que forçaram meia dúzia de ministros a pedir as contas. Obama, por sua vez, tem a exibir uma economia em recuperação e perspectivas favoráveis de reeleição em novembro. Isso significa que seu diálogo com a colega brasileira deve continuar por mais dois anos e meio, e quase o dobro disso se Dilma se reeleger em 2014.

É um horizonte de tempo suficiente para os dois líderes traduzirem em ações o desejo que dizem compartilhar de aprofundar as relações bilaterais, que são amplas, amistosas, povoadas de declarações de boas intenções, mas não passam disso. Na década que se encerrou no dia da posse de Dilma no Palácio do Planalto, o Brasil e os Estados Unidos se distanciaram. O fracasso, em 2003, das negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), que os países copresidiram, a trombada no Irã em 2010 e a inconsequência dos muitos grupos de trabalho criados pelos dois governos foram os fatos marcantes. Nesse mesmo período, com a economia brasileira em crescimento puxado pela expansão do mercado interno e a demanda chinesa por commodities, as trocas entre os dois países aumentaram, mas a participação relativa dos Estados Unidos no comércio exterior brasileiro caiu de 24% do PIB para menos de 12%.

Cientes dessa realidade e de que o diálogo bilateral se encontra em fase de reconstrução, iniciada com a visita de Obama a Brasília em março do ano passado, os dois governos evitaram criar expectativas quanto aos resultados da viagem de Dilma. A ênfase dada pelo Planalto à cooperação bilateral em educação, ciência e tecnologia e as medidas que Dilma vem tomando para estimular a competitividade e o crescimento da economia brasileira sublinham sua compreensão sobre a oportunidade que tem nas mãos e põem os dois países em rotas convergentes.

Trata-se de completar a transformação histórica que o País iniciou com a democratização, em 1985, consolidou com a estabilização da economia dez anos depois, aprofundou com a redução da pobreza e a expansão da classe média na década seguinte e depende agora da execução de reformas estruturais que permitam a um Brasil ascendente na cena mundial livrar-se do peso do déficit público, aumentar a taxa de investimento e alcançar um novo patamar de desenvolvimento. É nesse quadro, que se tornará mais complexo nos anos à frente com a redução do crescimento da China, que Dilma parece atraída pela ideia de uma relação mais intensa com os Estados Unidos.

Há certamente dúvidas em Washington quanto à eficácia das políticas adotadas por Brasília a partir do anúncio do Plano Brasil Maior, em agosto passado, para aumentar a competitividade da indústria nacional. As medidas de caráter protecionista embutidas na estratégia são vistas como sintomas de uma política que trata mais dos efeitos que das causas do problema. Mesmo assim, o cenário promissor da economia brasileira nos anos à frente alimenta o interesse de Obama numa aproximação com o Brasil.

Contra esse pano de fundo, altos funcionários americanos e brasileiros se esforçaram nas últimas semanas para valorizar as relações bilaterais. O Brasil "é uma história de sucesso e um exemplo que inspira soluções em outros países", disse o subsecretário de Estado William Burns em recente visita ao País. E salientou que empresas dos dois países fabricam, inovam e avançam juntas: "Nos Estados Unidos, estamos cientes de que nosso sucesso dependerá de abraçar as complementaridades com parceiros inovadores e dinâmicos e o Brasil pode e deve estar no topo dessa lista." Em visita a Nova York, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, destacou o empenho do governo brasileiro em atrair mais investimentos dos Estados Unidos e aprofundar as relações entre os dois países.

Declarações como essas não diminuem o ceticismo que prevalece em Washington e Brasília sobre as chances de a visita de Dilma a Obama produzir resultados. Fatos recentes e divergências em temas globais. A crítica que a presidente brasileira fez em reunião dos Brics, na semana passada, à estratégia de sanções contra o Irã, liderada pelo Estados Unidos, expôs uma diferença insuperável. Obama acredita que as sanções são a melhor alternativa a uma solução armada e estão produzindo o resultado desejado de forçar Teerã a negociar seu programa nuclear. Na mesma linha, há as críticas de Brasília, reiteradas por Dilma em Nova Délhi, ao "tsunami monetário" que os bancos centrais americano e europeu estariam produzindo para fazer frente à crise econômica, com efeitos colaterais nocivos para o valorizado real e as contas externas brasileiras. O fato de o Brasil omitir críticas à política de manipulação do câmbio praticada pela China torna a cobrança ainda menos aceitável em Washington. No lado brasileiro, causa perplexidade a relutância americana em dar ao País o mesmo reconhecimento que confere à India e apoiar formalmente a pretensão brasileira por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Pesa, também, o mal explicado cancelamento pela Força Aérea americana da compra de 20 Super Tucanos que seriam usados no Afeganistão. A decisão, justificada como confusão burocrática, frustrou um negócio que constituiria o primeiro engajamento de natureza estratégica entre os dois países em décadas. Cabe a Dilma e Obama, em seu encontro, provar que os céticos estão errados.

*Jornalista, é diretor do Brazil Institute do Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington




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