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Distúrbios após queima do Alcorão matam 7 afegãos

Manifestações contra incineração de textos islâmicos em base dos EUA entram no 2º dia e Otan pede desculpas

23 de fevereiro de 2012 | 3h 07
CABUL - O Estado de S.Paulo

Afegãos em fúria contra a queima - aparentemente acidental - de livros islâmicos em uma base americana voltaram ontem a protestar em várias cidades do país, entrando em choque com tropas de Cabul. Sete manifestantes morreram e dezenas ficaram feridos em dois dias de confronto em razão do incidente no complexo militar ocidental de Bagram, leste do Afeganistão.

O comandante da Otan no país, general John Allen, desculpou-se publicamente no domingo pelo "grave acidente", reforçando que os sacos com os livros foram atirados no incinerador da base de forma "absolutamente inadvertida". Ontem, o porta-voz da aliança ocidental no Afeganistão, o brigadeiro alemão Carsten Jacobson, disse que uma comissão instalada para investigar o caso apresentará suas primeiras conclusões hoje.

Segundo a versão apresentada pela Otan, dois militares de Bagram jogaram sacos com os textos islâmicos no incinerador pensando que se tratava de "lixo". Ao verem os livros em chamas, funcionários afegãos da base americana avançaram sobre as chamas e começaram a retirar as obras. A maior parte delas foi salva, mas vários livros ficaram parcialmente destruídos - e eram ontem erguidos por afegãos em fúria como prova do desrespeito do Ocidente.

"Foi um erro. No momento em que soubemos dele, imediatamente paramos e interviemos", afirmou o comandante da Otan. A queima de textos com a palavra de Deus e do Profeta Maomé é um sacrilégio, segundo o código islâmico.

O Ministério do Interior de Cabul afirmou que quatro pessoas morreram em protestos na província oriental de Parwan. As outras três mortes ocorreram diante de uma base militar americana perto da capital e nas províncias de Jalalabad e Logar.

"O povo tem o direito de protestar pacificamente. Mas apelo aos meus compatriotas para que não partam para a violência", afirmou o presidente Hamid Karzai. "Por favor sejam pacientes e aguardem a conclusão da investigação."

Em Cabul, milhares de afegãos aos gritos de "Morte aos EUA" atiraram pedras contra um complexo que serve de residência a estrangeiros. Pneus queimados bloquearam partes da capital e encheram bairros de fumaça preta.

Uma fonte militar disse sob a condição de anonimato à Associated Press que os livros estavam na biblioteca usada por presos acusados de terrorismo. Eles estariam sendo usados para "incitar" a luta contra tropas ocidentais e militantes supostamente escreviam mensagem nas páginas para passar comandos a outros detentos. / AP e REUTERS