Do sucesso com Putin à denúncia da corrupção
Após trabalhar lado a lado com o líder russo nos anos 90 e elogiar sua eleição para a presidência, em 2000, Sergei Koleniskov passou a criticá-lo por construção de palácio
Sergei Kolesnikov é um biofísico de fala mansa, que em certa ocasião pensou que passaria toda a sua carreira científica trabalhando na plácida escuridão de um instituto militar soviético secreto.
Então, o governo comunista entrou em colapso, ele se tornou um próspero empresário e, segundo seu relato, passou a fazer parte do círculo de amigos capitalistas de Vladimir Putin e a trabalhar com certo sucesso na reconstrução do primitivo sistema de saúde da Rússia.
Hoje, entretanto, Kolesnikov é um fugitivo que se dedica a denunciar, no exterior, o que acredita ser o sistema corrupto da era Putin.
É uma campanha pessoal arriscada, iniciada por ele há pouco mais de um ano com estardalhaço, após a publicação de uma carta aberta ao presidente Dmitri Medvedev que revelava a existência de um palácio de US$ 1 bilhão construído às margens do Mar Negro, que o próprio Kolesnikov teria ajudado a erguer secretamente para Putin - cujos assessores desmentiram que ele tivesse algo a ver com o palácio e a enorme propriedade que o cerca, pertencente a uma companhia dirigida por um velho amigo do líder russo.
Mas as perguntas não param: uma versão russa do WikiLeaks postou fotografias do local de encher os olhos, que se espalharam pela internet; militantes e jornalistas russos que tentavam visitar o site disseram que foram impedidos e interrogados pelo serviço secreto russo; e a Novaya Gazeta, o jornal russo que mais critica Putin, noticiou que conseguiu pôr as mãos num contrato de 2005 que prova que o gabinete russo esteve envolvido na construção.
Em março, artigos publicados na imprensa russa informaram que o palácio havia sido vendido a outro amigo de Putin por US$ 350 milhões.
Na época, Kolesnikov já havia fugido da Rússia, estava morando na Estônia e forneceu a jornalistas documentos que aparentemente corroboram o que ele afirma a respeito do seu papel numa rede de empresas com supostas ligações com Putin. Ele está sempre alerta contra agentes de um governo que, segundo acredita, gostaria que ele fosse silenciado.
"Na minha opinião, acho que o perigo está em toda parte", afirmou Kolesnikov, que usa óculos sem aro e parece muito mais jovem do que seus 63 anos, em uma entrevista num café de Manhattan, no mês passado, durante uma breve visita aos Estados Unidos. "Mas, se alguém pudesse mostrar toda a verdade ao país inteiro a respeito desse palácio e de todas essas maquinações, Putin teria de ir embora em duas semanas", disse.
A repentina fermentação na política russa, com duas grandes manifestações contra Putin, em Moscou, em dezembro, conferem à cruzada de Kolesnikov um sentido menos quixotesco. Ele disse que a Rússia está reagindo à mesma combinação incendiária de elementos como a internet e os smartphones com vídeo que insuflaram as revoltas da Primavera Árabe.
"Hoje, é impossível esconder o que quer que seja", disse. "Está ficando cada vez mais difícil para os políticos contar mentiras."
Kolesnikov critica energicamente as apressadas concessões políticas feitas desde dezembro pelo presidente Medvedev e Putin, o primeiro-ministro, que pretende concorrer a um terceiro mandato presidencial nas eleições do dia 4. "As pessoas acham que ele já começou as negociações, mas não é nada disso. Ele não passa de um Kadafi", disse Kolesnikov, acrescentando que Putin pretende se agarrar ao poder com a tenacidade d o líder líbio morto recentemente.
Histórico. A trajetória da família de Kolesnikov e seu currículo parecem saídos de um romance que procura refletir os diversos períodos da tumultuada história recente da Rússia. Seu pai era militar e combateu na 2.ª Guerra; sua mãe, que ainda vive, é médica, e, na adolescência, sobreviveu ao brutal cerco a Leningrado.
Kolesnikov obteve doutorado em Biofísica no início dos anos 70 e passou mais de 15 anos fazendo pesquisa na área militar em Leningrado sobre "defesas biológicas" contra armas sofisticadas, como os lasers. Ele gostava do seu trabalho, que era bem remunerado segundo os padrões soviéticos.
"Havia alguns aspectos positivos no regime soviético", disse Kolesnikov. "Não existia um fosso tão profundo entre os que estavam lá em cima e os que estavam em baixo. As pessoas não estavam obcecadas pelo dinheiro. O Estado controlava grande parte da vida, mas muitas pessoas podiam se dedicar a um trabalho criativo próprio", afirmou.
Kolesnikov casou-se e teve um filho, que estudou Física e atualmente tem uma empresa de tecnologia da informação. Sua primeira esposa morreu de câncer, perda que ele definiu como "a maior tragédia" de sua vida. Mais tarde, ele voltou a se casar.
Fim da URSS. Em 1989, depois que os empreendimentos privados foram legalizados na época da perestroika de Mikhail Gorbachev, Kolesnikov fundou uma empresa de equipamentos para medicina. Teve um sócio que era um burocrata do Departamento de Saúde de Leningrado, também funcionário da KGB e conhecido de Putin, que então fazia sua carreira no organismo de inteligência.
Em 1991, ano em que Leningrado recuperou seu antigo nome, São Petersburgo, Kolesnikov contou que Putin - na época funcionário da prefeitura - sugeriu que ele e seu sócio criassem uma empresa com a administração municipal para a importação e produção de equipamentos médicos e para a modernização de hospitais decadentes. A empresa foi batizada Petromed. E prosperou.
Quando Putin foi eleito presidente em 2000, Kolesnikov vibrou. "Ele era jovem e muito sagaz - e imediatamente começou a pôr ordem nas coisas. Todos estavam cansados das bebedeiras de (Boris) Yeltsin. Todos estavam cansados dos oligarcas que não passavam de ladrões."
Uma pessoa muito próxima a Putin propôs uma curiosa, porém ambiciosa, função no plano nacional para a companhia de equipamentos de medicina. Os oligarcas que apoiavam o governo seriam solicitados a doar grandes somas de dinheiro que a companhia usaria para modernizar e equipar os hospitais, enquanto 35% dos lucros seriam direcionados para outros investimentos em toda a Rússia, entre eles uma madeireira e um estaleiro.
O projeto decolou graças a uma contribuição de US$ 203 milhões de Roman Abramovich, um dos homens mais ricos da Rússia, relatou Kolesnikov, que corroborou sua história com vários documentos e contratos aparentemente autênticos.
Ele afirmou que parte do dinheiro era destinada, principalmente sob a forma de empréstimos, para companhias operadas por parentes e amigos de Putin. "Eu podia entender muito bem que Putin estivesse ajudando seus amigos", disse. "E acreditava que estávamos fazendo um excelente trabalho. Estávamos investindo na Rússia", concluiu.
Kolesnikov disse que se encontrou com Putin mais de dez vezes, mas que, em geral, tratava com seus assessores. Com o tempo, a situação mudou. Os assessores começaram a referir-se ao seu chefe como "o czar" e o dinheiro passou a ser canalizado para o palácio no Mar Negro, conhecido como "projeto sul".
Os custos aumentaram para US$ 500 milhões enquanto ele esteve envolvido no empreendimento, disse Kolesnikov; com a construção de uma nova estrada, rede elétrica e de gás natural, além de instalações de segurança, ele calculou que o custo teria chegado a US$ 1 bilhão.
Com a recessão global de 2008, o dinheiro foi escasseando e os sócios de Putin ordenaram que ele cortasse todos os outros projetos e gastasse todos os recursos disponíveis no palácio. Então, Kolesnikov ficou sabendo que o material para a construção estava entrando ilegalmente no país, driblando a alfândega. Ele protestou, escreveu sua carta aberta e deixou o país.
Dmitri Peskov, o porta-voz de Putin, não deu importância ao relato de Kolesnikov, afirmando que, pelo que sabia, ele havia fugido da Rússia porque tivera uma briga com os sócios a respeito de dinheiro que havia sido roubado da companhia. Numa entrevista recente, Peskov qualificou as afirmações de Koleniskov a respeito do palácio como um "absurdo", afirmando que elas fazem oparte dos vários boatos que atribuem uma riqueza extraordinária ao líder russo.
'Boatos'. "Você já ouviu falar que Putin possui 5% da Gazprom e é dono da metade da companhia chamada Gunvor? E de seu patrimônio pessoal, de US$ 30 bilhões?" disse Peskov rindo. Mas ele não excluiu a possibilidade de que o edifício possa ter sido construído para o Kremlin. "Nós temos edifícios públicos construídos para o Kremlin, temos diferentes locais para eventos internacionais, congressos, negociações internacionais, mas achar que cada um deles é o palácio de Putin é absurdo", afirmou.
Kolesnikov quer regressar à Rússia o mais cedo possível, assim que for seguro para ele - supostamente numa era pós-Putin. E não descarta a possibilidade de desempenhar uma função política no país.
"Já estou bem velho", afirmou. "É preciso que apareçam novos líderes políticos, jovens. Cabe a nós ajudá-los". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
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