É hora de o Fundo Monetário Internacional salvar a Europa
Fundo precisa agir com ousadia, mas não se pode esquecer que a prosperidade de um país ou de uma região depende de cada um
Artigo
Os líderes europeus se reuniram esta semana para mais um "histórico" encontro de cúpula no qual foi dito que o destino da Europa seria decidido. Mas é claro que esta não será a última reunião convocada para lidar com a crise financeira.
Levando-se em consideração que a Europa é o maior componente da economia global, há para o restante de nós muito em jogo na decisão de ajudar a tornar possível a continuidade do crescimento do continente e de garantir que o sistema financeiro europeu sustente investimentos em todo o mundo - principalmente num momento em que os empréstimos tomados por bancos europeus que ultrapassam as fronteiras nacionais somam um volume muito superior ao dos empréstimos de bancos de qualquer outra região.
O momento representa também um marco histórico para o Fundo Monetário Internacional (FMI). O foco das medidas aprovadas em resposta à crise deve ser deslocado de Bruxelas e Frankfurt para a sala do conselho do FMI.
Desde os problemas enfrentados por Grã-Bretanha e Itália nos anos 70, passando pela crise de endividamento da América Latina nos anos 80 e pelas crises financeiras ocorridas no México, na Ásia e na Rússia nos anos 90, o FMI operou por meio de um ajuste na liquidez com rigorosas exigências de comportamento que deveriam ser seguidas pelos envolvidos com o intuito de restaurar a sustentabilidade de suas posições financeiras.
Muito pode ser debatido com relação às medidas escolhidas pelo Fundo. Mas o FMI defendeu consistentemente a proposta de que as leis da economia não devem e não podem ceder espaço a considerações políticas. Em momentos-chave, o FMI ofereceu receitas não apenas aos países carentes de recursos, mas também àqueles cujo sucesso é de importância sistêmica para a economia global.
Em agosto, Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, destacou a gravidade dos problemas que afetam a Europa num discurso feito em Jackson Hole, Wyoming, numa reunião de líderes financeiros.
Lagarde apontou para a escassez de capital no sistema bancário europeu e para a necessidade da implementação de ajustes que sejam condizentes com a continuidade do crescimento. Agora, o FMI precisa agir em várias frentes.
Primeiro, é essencial que o ajuste na Itália seja feito no contexto de um programa do FMI. Depois que as autoridades europeias enfatizaram a capacidade de solvência da Grécia, que poderia arcar normalmente com os encargos de sua dívida, é improvável que elas, sozinhas, tenham força para devolver a segurança aos mercados. Além disso, haverá profundos problemas políticos intercontinentais se o norte europeu impuser condições à Itália, e mesmo se não o fizer. Seria muito melhor terceirizar o desgaste desses traumas para o FMI.
Segundo, enquanto o FMI lida individualmente com cada país europeu, o Fundo precisa reconhecer - mais do que fez até o momento - que eles estão incorporados a um sistema monetário e a uma comunidade de países que contam com um crescente número de instituições comuns.
Seria inconcebível que o FMI emprestasse dinheiro a um país cujo banco central não estivesse comprometido com uma política monetária apropriada ou que ignorasse os riscos contingentes no sistema bancário.
O apoio do FMI a qualquer país europeu deve ter como pressuposto um entendimento com o Banco Central Europeu (BCE) que controla a política monetária do país.
Terceiro, ao tratar com os membros individuais de uma união monetária, o FMI não pode avaliar as perspectivas de um membro isoladamente. Se alguns países devem registrar uma redução no déficit comercial, outros - principalmente a Alemanha - devem enfrentar superávits muito menores. Se não houver um caminho claro para os superávits menores, não haverá caminho claro para a redução dos déficits, ou seja, para a solvência.
De maneira mais geral, a sustentabilidade de qualquer programa deve ser avaliada no contexto de projeções realistas para o ambiente econômico. O FMI não pode aprovar programas de ajuste que não sejam realistas.
Quarto, o FMI tem a responsabilidade de falar claramente a respeito das ameaças à economia global. Mesmo que o spread de risco na Europa seja reduzido e um crescimento modesto seja obtido, a economia global vê-se ameaçada pela desalavancagem em larga escala dos bancos europeus.
Uma melhoria nas posições fiscais soberanas ajuda, mas não será suficiente. Se os bancos não forem substancialmente recapitalizados em pouco tempo, haverá uma grande contração de crédito na economia global.
Depois desta semana, o foco da atenção passará a ser o FMI. O Fundo precisa agir com ousadia, mas ninguém deve esquecer uma lição fundamental de todas as crises anteriores: a comunidade internacional pode oferecer apoio, mas as perspectivas de prosperidade de um país ou de uma região dependem diretamente dos próprios esforços. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
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