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''É irreal fazer inovação no Brasil''

Antonio Carlos Martins de Camargo: médico e farmacologista

28 de março de 2009 | 0h 00
Herton Escobar - O Estadao de S.Paulo

O farmacologista Antonio Carlos Martins de Camargo, há oito anos diretor do Centro de Toxinologia Aplicada (CAT) do Instituto Butantã, pediu demissão do cargo. Motivo: "É irreal pensar em fazer inovação no Brasil atualmente. Você pode dar dinheiro para o melhor cientista do mundo que ele vai morrer na praia", justificou, em entrevista exclusiva ao Estado. "Comecei a me sentir mal em mistificar uma coisa que não funciona. Não vou mexer mais com isso", desabafa.

Inaugurado em 2000, o CAT é um dos 11 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Foi criado para trabalhar em uma das áreas supostamente mais promissoras da biotecnologia: a busca de novos princípios ativos para drogas em espécies da biodiversidade brasileira. Espalhados em laboratórios de várias especialidades, os cientistas do CAT procuram e estudam moléculas com potencial farmacológico produzidas por cobras, aranhas, escorpiões, lacraias e outros bichos venenosos da fauna nacional.

Em oito anos, o centro recebeu US$ 11 milhões em recursos públicos da Fapesp e publicou dezenas de trabalhos científicos, segundo Camargo. O início foi ótimo, diz ele. O CAT patenteou 13 moléculas e fechou vários contratos com a indústria farmacêutica nacional para levar as pesquisas adiante e tentar transformá-las em produtos. Ou seja: transformar conhecimento científico em inovação tecnológica, que é a grande promessa não cumprida da pesquisa brasileira.

A partir de 2005, porém, o cenário mudou. "As empresas caíram fora", segundo Camargo, afugentadas por mudanças na legislação que minaram a segurança da propriedade intelectual privada sobre os eventuais produtos.

Sem o apoio financeiro das empresas, e desgastado por desentendimentos profissionais e pessoais com a diretoria científica da Fapesp, Camargo jogou a toalha. Pediu demissão do cargo de diretor e voltou a ser "só" pesquisador. "É uma saída estratégica. Se continuar aqui vou atrair todos os anticorpos para mim, e não quero que isso prejudique o CAT", disse. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Por que o senhor pediu demissão?

Avaliando as condições reais, hoje, não há segurança para que empresas façam grandes investimentos em pesquisa e inovação. A legislação não dá as garantias necessárias para os investimentos de milhões de dólares que precisam ser feitos. Isso é ruim para o País, porque sem investimento industrial não há inovação, e para que haja investimento a propriedade intelectual de uma patente precisa estar muito bem amparada legalmente.

O que o CAT tem a ver com isso?

Quando começamos o CAT, o modelo adotado era de que a propriedade das patentes seria dividida em três partes, entre a Fapesp, o inventor principal e a empresa que investisse no projeto. Isso funcionou bem até 2004, quando aprovaram a nova Lei de Inovação e as condições exigiram que a titularidade das patentes fosse transferida da Fapesp para a instituição empregadora, que no nosso caso é o Instituto Butantã. Só que o Butantã não tem as prerrogativas para exercer essa titularidade.

Que problemas isso cria?

O Butantã é uma instituição do Estado. Isso significa que as patentes que tiverem titularidade do Butantã terão de passar pelo crivo do governador e da Assembleia Legislativa para que possam ser licenciadas, vendidas ou qualquer outra coisa. Nenhuma empresa farmacêutica vai fazer um investimento nessas condições, sabendo que sua patente poderá ser anulada a qualquer momento. A partir daí ficou claro que seria muito difícil encontrar investidores interessados nas patentes do CAT.

Mas qual é a função do CAT, produzir ciência ou produzir patentes?

A primeira função do CAT, como um Cepid, é desenvolver pesquisa de alta qualidade. Mas essa pesquisa deve ser voltada para uma aplicação, com vistas a transformar o conhecimento gerado em algum benefício social ou econômico - que, no nosso caso, seria uma droga para o tratamento de uma determinada doença. Acho que o Cepid é um programa muito inteligente e muito oportuno, que faz exatamente o que o País precisa, que é transformar conhecimento em tecnologia. Fazer ciência não é problema; estamos fazendo isso muito bem. O maior gargalo é a inovação.

Quantas patentes o CAT já produziu nesses oito anos?

Treze. A que tem maior apelo é a de uma molécula do veneno da cascavel, que nós isolamos, sequenciamos, sintetizamos e cujo efeito reproduzimos. É um analgésico extremamente poderoso, que tem grande potencial para se transformar numa droga. Temos também patentes sobre toxinas que inibem o crescimento de células cancerígenas e uma molécula com ação anti-hipertensiva, especialmente voltada para o tratamento da pressão alta na gravidez (eclâmpsia). Todas elas isoladas de espécies brasileiras: da cascavel, da jararaca e de um carrapato.

O que aconteceu com essas primeiras patentes?

A da cascavel está com a Coinfar (um consórcio de empresas farmacêuticas nacionais). Eles não informam em que pé está o desenvolvimento, mas sei que estão investindo pesado. Essas patentes foram depositadas antes da Lei de Inovação e da transferência da titularidade para o Butantã, então elas foram negociadas diretamente com a indústria, via contratos com a Fapesp. O problema agora é para as novas patentes. No modelo proposto, não vejo como isso seja viável.

Qual o impacto disso no desenvolvimento do País? O investimento feito para chegar a essas patentes pode ser desperdiçado?

O investimento que foi feito no CAT não será perdido de forma nenhuma. O resultado está aqui. Temos uma estrutura muito bem montada e muito bem lubrificada, que pode render muito ainda, se algumas coisas que precisam ser destravadas forem destravadas. Acho que meu afastamento vai permitir à Fapesp colocar alguém no meu lugar que possa atingir o horizonte que eu não consegui alcançar, provavelmente por uma incapacidade minha de lidar com os problemas brasileiros. É preciso ter habilidades muito especiais para sobreviver no Brasil.

Que tipo de habilidades?

Veja, eu sou cientista. Tenho compromisso com a verdade, com a ciência. Não tenho compromisso com grupos de pessoas e coisas assim; isso é próprio de político. Se um cientista faz isso, não é mais cientista.

Então, para fazer inovação é preciso ser político, não cientista?

Eu diria um político bem intencionado, com boa formação científica. Há pessoas com esse perfil, mas eu não sou uma delas.

A indústria joga contra ou a favor da ciência?

A indústria teve um papel fundamental no CAT. Tudo que você vê aqui foi construído, primeiro, com recursos da Fapesp e, segundo, com apoio da indústria farmacêutica nacional. Mas, quando as empresas perceberam que não havia mais segurança no resultado do investimento, caíram fora.

Como assim, ?caíram fora??

Antes, elas investiam uma parte, cerca de 10% do que a Fapesp investia, para o pagamento de pessoal administrativo, bolsas para técnicos e outras coisas que não podiam ser pagas pela Fapesp. Aí pararam de investir, em 2005, e o CAT sobreviveu com um pouco de recursos que economizamos e fomos gastando o mínimo necessário. Agora, o dinheiro praticamente acabou. Esse é um dos motivos da minha saída também: não tenho mais recursos que me permitam manter uma secretaria ou um laboratório de espectrometria de massa, que é uma técnica essencial e altamente sofisticada.

E agora? O laboratório vai parar?

Estamos substituindo um técnico de grande experiência por um pós-doutorando que a Fapesp paga, mas que ainda está em formação. Estamos quebrando o galho desse jeito.

Se o CAT descobrisse uma supermolécula hoje e oferecesse para a indústria, o que aconteceria?

Aconteceu. Já fizemos isso e eles disseram: "Não obrigado."

Que molécula é essa?

Não posso dizer agora. Ainda temos esperança de mudar essa situação.

ÉTICA: "Sou cientista, tenho compromisso com a ciência, não com grupos. Isso é coisa de político"

RISCO: "A legislação não dá a segurança que as empresas precisam para fazer investimentos de milhões de dólares"

AMARRAS: "Fazer ciência não é problema, já fazemos isso muito bem. O maior gargalo é produzir tecnologia"