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Ele atende por Renegado e solta

o verbo no Oficina CD de estréia do rapper mineiro, Do Oiapoque a Nova York, mostra o desejo de levar seu discurso para além da periferia

15 de outubro de 2008 | 0h 00
Livia Deodato - O Estadao de S.Paulo

Flávio de Abreu Lourenço foi chamado de Renegado quando, ainda adolescente, resolveu deixar de fazer parte de um grupo de rap que tinha formado com uns amigos lá em Alto Vera Cruz, bairro da periferia de Belo Horizonte. Adotou de vez o apelido quando se deu conta de que a palavra carregava diversas outras conotações, todas muito próximas ao seu cotidiano, à realidade que enfrenta diariamente junto a milhares de outros brasileiros. "Temos vários bens renegados, como saúde, escola, moradia, alimentação, e mesmo nessa condição, quero mostrar que existem alternativas ao crime. Que a revolta pode ser canalizada em um outro caminho", sentencia.

Ouça Do Oiapoque a Nova York

A comprovação disso é Do Oiapoque a Nova York, primeiro álbum-solo do rapper mineiro que ele lança hoje em um show no Teatro Oficina. O nome do disco também faz menção a essa vontade de Renegado de não só dirigir essa energia para a produção de arte de qualidade, como também o desejo de amplificar seu discurso. Mas sem alimentar nenhuma ilusão.

"Eu não tenho a pretensão de estourar com esse disco, não tenho nenhuma ilusão, mesmo porque acredito que uma carreira não se constrói assim, da noite para o dia", afirma. "A única coisa que quero é que ele seja ouvido e transmitido com a verdade com que sempre me dediquei", garante.

Produzido por Daniel Ganjaman (integrante do coletivo Instituto, além de já ter trabalhado com bandas como Racionais MC?s, Mombojó e Planet Hemp), Do Oiapoque a Nova York faz jus ao seu título também por não ser centrado no único estilo de onde Renegado firmou sua base artística: alcança um equilíbrio harmônico entre os mais variados gêneros, do samba ao ragga, do hip-hop à rumba cubana. Para isso, convidou nomes especiais para endossar a sua estréia - a bela voz, também de Minas, Aline Calixto, traz potência ao refrão de Meu Canto, que começa ao som do hip-hop e faz uma inversão suingada para o samba; outra mineira, Júlia Ribas, dá um toque feminino ao rap Mil Grau; e as Meninas de Sinhá, grupo de senhoras vizinhas de Renegado em Alto Vera Cruz, contempladas com o prêmio TIM 2008, que emprestaram graça e leveza à canção-homenagem ao bairro de onde vieram. "A Aline e a Júlia perfumam o disco, e as Meninas de Sinhá dão o charme", diz Renegado.

Os rappers paulistas Max B.O. e Funk Buia, do Z?áfrica Brasil, além dos cubanos Alayo e Cubanito, também vêm somar ao álbum, cuja tiragem inicial é de 4 mil cópias, sendo que metade desse número será vendida ao preço popular de R$ 5. A maioria das canções são assinadas pelo próprio Renegado, hoje com 26 anos, que se dedica à música há pelo menos 13, e desde o fim de 2006 vem lapidando Do Oiapoque a Nova York. A Natura está patrocinando os shows de lançamento do álbum, mas toda a produção foi feita "com muita raça". "Deixei de bater muita laje na casa da minha mãe para poder lançar esse disco", conta ele, com um invariável bom humor.

Desde 1997, Renegado atua como presidente na ONG Negros da Unidade Consciente (NUC), inicialmente formada como um grupo de rap e atuante até hoje. O objetivo da organização é sensibilizar os jovens da comunidade, oferecendo a eles as ferramentas necessárias para se tornarem agentes de sua própria criação, além de multiplicadores.

O NUC hoje oferece oficinas artísticas de canto, teatro, expressão corporal, DJ, rap, linguagem audiovisual, entre muitas outras, e é mantido com a ajuda da lei de incentivo estadual e por meio de parcerias com outras ONGs. Recentemente, o NUC se tornou um ponto de cultura do Ministério da Cultura. Renegado, que sofreu forte influência de artistas como Racionais MC?s, Thaíde e Nação Zumbi, agora é seguido por meninos e meninas que desejam trilhar um caminho paralelo ao seu.

"A melhor recompensa é estar, por exemplo, num ponto de um ônibus e ser reconhecido pelas pessoas da comunidade, que vêm dizer que admiram o trabalho que faço e querem mais informações. Ainda mais por eu ter consciência de que estou expondo o que eu vivo, a minha realidade. E que a minha verdade está em todas as etapas do meu trabalho, dos arranjos às letras, e não estou fazendo música porque o mercado pede." O álbum, independente, é o primeiro lançamento de seu selo próprio, A Rebeldia, que num futuro bem próximo pretende agregar artistas de diferentes vertentes.

Serviço

Renegado. Teatro Oficina. Rua Jaceguai, 520, Bexiga, 3106-2818. 4.ª (15), 21 h. R$ 5