Em 4 dias, Piñera assume país desfigurado pelo tremor
Reconstrução durará os 4 anos do mandato e presidente não terá reeleição
O Chile que o presidente eleito Sebastián Piñera assumirá na quinta-feira tornou-se inesperadamente mais pobre e caótico do que há uma semana. Os planos com os quais sua coligação venceu as eleições presidenciais de dezembro também encolheram depois do terremoto do dia 27. O leque de ações foi subitamente reduzido para o tripé segurança, abastecimento e reconstrução.
A previsão é que o Chile leve 4 anos para ser reconstruído, período exato do mandato presidencial, num país onde a reeleição é proibida. Tudo isso com uma freada brusca na economia nacional - a previsão de crescimento do PIB em 2010 caiu de 3% para 1%.
A própria cerimônia de transmissão do cargo foi revista esta semana, depois de uma reunião entre Piñera e a presidente Michelle Bachelet. No lugar das festas que marcariam o triunfo da direita no Chile - que chega ao poder pela primeira vez desde o fim da ditadura (1973-1990) de Augusto Pinochet - haverá uma solenidade austera, ainda marcada pelo luto pelas mais de 800 mortes e a busca aos desaparecidos. Os presidentes que prestigiarão a posse foram instruídos a deixar suas mulheres e assessores secundários em casa.
"A coragem de um bom capitão não é medida quando as águas estão calmas, mas quando há tormentas", disse Piñera na cerimônia de apresentação dos novos responsáveis pelas cinco regiões mais afetadas. "Nosso futuro governo não será o governo do terremoto, mas da reconstrução", anunciou.
"Piñera tem um desafio de reconstrução física do país, mas também precisa entender que há cimentos do desenvolvimento humano e do capital social que foram debilitados", disse ao Estado Gonzalo Tapia, sociólogo da Universidade Diego Portales, de Santiago. "Devemos investir em mais e melhores redes sociais, em prestação de contas públicas, superação das graves desigualdades e outros desafios que não estão ligados à engenharia."
OPORTUNIDADES
Mas a reconstrução também trará oportunidades para Piñera, uma vez que o Chile está agora mais aberto ao discurso da unidade nacional. "O país terá seu crescimento econômico afetado, mas, em nenhum momento, isso significará aumento na taxa de desemprego", disse Tapia. "Ele terá de exigir mais produtividade dos setores que foram menos afetados, como a mineração, além de apostar em fortes subsídios públicos para pôr novamente de pé os setores agrícola e pesqueiro."
Embora debilitada, o ramo da construção civil também poderá liderar a recuperação nacional. O setor espera aumentar em 10% as contratações este ano. Além de ver a oferta de empregos crescer, Piñera terá o privilégio de inaugurar dezenas de novas pontes, estradas, escolas, hospitais, moradias populares e edifícios públicos em seu primeiro ano de governo.
Sua primeira promessa é de ampliar o estado de catástrofe decretado por Bachelet para um número ainda não estabelecido de regiões do país. A medida ampliaria o toque de recolher e a presença das Forças Armadas, revelando um perfil mais decidido do que o de sua antecessora, que foi duramente criticada por ter demorado a tomar as medidas necessárias para conter a onda de saques que assolou o Chile logo após o terremoto.
REVISÃO
3%
Era a previsão de crescimento anual do Chile, antes do terremoto
1%
É quanto o crescerá em 2010
10%
É a previsão de crescimento das contratações na construção civil
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