Emoções maduras em versos jovens
Ramon Mello, de 25 anos, renova o time de poetas do País ao lançar o ótimo Vinis Mofados, com autógrafos hoje no Rio
Ramon Mello divide um conjugado em Copacabana com Borges, nome dado a seu gato em homenagem ao escritor argentino. Além de confidente, o felino é um símbolo vivo da entrega de Ramon à ficção. Aos 25 anos, ele está lançando o primeiro livro de poemas, em que investiga os sentidos concretos da palavra e mostra uma relação crítica com o Rio. Quem se interessar encontra a sua essência poética em dois lugares. No apartamento que divide com Borges, onde abriga uma coleção de cerca de 200 discos de vinis. Ou no título do livro de estreia, Vinis Mofados (Língua Geral, 96 págs., R$ 25), onde fala de "literatura e sentimento".
Ramon pertence a uma nova geração de poetas, como Bruna Beber (leia abaixo), que mantém forte diálogo com a música. O ritmo e a estrutura simples das obras do cancioneiro nacional impregnam Vinis Mofados, que será lançado hoje no Rio (Brechó de Salto Alto, Rua Siqueira Campos, 143, Copacabana, tel.: 2236-2589, às 19h30).
A orelha é assinada pela crítica Heloísa Buarque de Holanda, de quem Ramon prepara uma biografia. Cecília Meireles, Cacaso, Waly Salomão e Viviane Mosé são tão importantes para Ramon quanto Chico Buarque, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto e Nelson Cavaquinho.
Existe um traço peculiar no seu contato com as melodias e letras. "Minha relação afetiva é com o suporte antigo, eu não baixo música pela internet", diz. "Identifico em mim um saudosismo, por que falo de vinil quando existe o iPod? ", se pergunta. O mofo dos seus vinis era uma metáfora perfeita para o jovem às voltas com a vida, o amor e sua complicada realização.
Vinis Mofados é uma referência a Morangos Mofados, livro do gaúcho Caio Fernando Abreu que mostrou, nos anos 1980, a desesperança de uma geração. Da produção de Caio F., Ramon descobriu as peças, primeiro. Ele estudou teatro em Araruama, sua cidade natal, a 108 km do Rio. Mudou-se para o Rio em 2001. "Quando cheguei, não tinha nenhuma referência literária, não sabia nem mesmo como se publicava um livro."
O pulo do gato veio com a criação de um blog, Clickinversos, em que Ramon publicou entrevistas com escritores iniciantes. Foi lá, por exemplo, a primeira entrevista de Tatiana Salem Levy, ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura (2008), na categoria estreante, com o romance A Chave de Casa. Ele também pegou Daniel Galera e João Paulo Cuenca nos primeiros passos. O último projeto foi organizar o site ENTER - Antologia Digital, exposição do trabalho de autores que têm a palavra como suporte criativo e a web como ferramenta de divulgação. Hoje ele cuida do portal de cultura da Livraria Saraiva e organiza a obra de Rodrigo de Souza Leão, poeta carioca morto no ano passado, autor de Todos os Cachorros São Azuis.
Ramon se diz parte de uma juventude "sem ideologia, e vivendo uma grande transformação", provocada sobretudo pela internet. Em Vinis Mofados, mostra uma maturidade afetiva que não corresponde aos anos exibidos pelo R.G. É um jovem que deseja "dizer te/ amo sem/ neuroses", mesmo que esse desejo se manifeste na primeira noite de uma relação fugaz (versos de Allegro). Para evitar o romantismo infantil, ele se vale da ironia e do bom humor.
Em Lado A, primeira parte do livro, "aparece o cara que gosta de escrever". De modo impessoal, ele testa a percepção de que a escrita "tem uma importância": responsabilidade na expressão leva à transformação das coisas e dos indivíduos. Ele também flagra o cotidiano da capital, como nos versos de Bairro Peixoto, Playlist e Cutelaria. "É um olhar diferente, descobridor, do cara que transita entre a capital e Araruama."
Em franco diálogo com a música, Lado B expõe a sexualidade e as frustrações afetivas. "É mais visceral." Cai a máscara do poeta. O passado está quente, dá para ver subindo a fumaça da queimadura amorosa: Ramon só sabe escrever quando se distancia das experiências. Os romances fracassados resultam em dor dilacerante e cansativa. O mundo não gira em torno do umbigo, apenas na vitrola. Vem o impasse: "cansei de/ colecionar recortes/ do passado/ quero instantes/ raízes/ no presente (Faixa Arranhada)". Na estreia, Ramon Mello descobriu: é hora de o poeta tirar o mofo do coração arranhado.
Ramon Mello
DOIDA CANÇÃO
procuro
você em outros
corpos não
encontro
suores noturnos
vestígios de gozo
no lençol velho
nenhuma pista
ainda sinto
seu perfume
quando ouço
Caymmi
R
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