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'Era palmeirense, mas o Corinthians me conquistou'

'Patada atômica' se rendeu ao carinho e à força da Fiel para se transformar no maior camisa 10 alvinegro

01 de setembro de 2010 | 0h 00
- O Estado de S.Paulo


Saída. Riva deixou o Corinthians após a derrota na final do Paulista de 1974

Rivellino é nome de origem italiana. Por isso, não chega a ser uma surpresa que os integrantes da família, tradicional no bairro do Brooklin, na capital paulista, desde a década de 40, se transformassem em torcedores do Palestra Itália. E assim foi com o jovem Roberto até a adolescência (foto), quando, magoado pelo descaso dos responsáveis pela peneira do seu time do coração, resolveu defender o grande rival. "É verdade, nasci palmeirense. Mas fui tão bem recebido no Parque São Jorge que me tornei corintiano rapidamente", disse o craque. "Posso dizer que o Corinthians me conquistou."

Roberto Rivellino chegou ao Parque São Jorge no início dos anos 60. Lá não precisou passar por testes. Um dirigente da época o viu atuar em uma partida de futebol de salão (na época não se falava futsal) pelo Banespa, ficou deslumbrado com a habilidade do garoto e o indicou ao Corinthians. No Alvinegro, Rivellino viveu uma história de amor que, como toda paixão, teve alguns momentos conturbados, como sua saída, em 1975, sem ter vivido a emoção da conquista de um título.

Você está com 64 anos. Já chegou à conclusão do que o Corinthians representa na sua vida?

Claro. O Corinthians representa tudo. Foi no Corinthians que tive a possibilidade de conquistar tantas coisas, de chegar à seleção, enfim, de me realizar profissionalmente. É claro que com o meu talento eu poderia me dar bem em outros lugares, mas o Corinthians foi muito especial na minha trajetória.

Como começou essa sua relação com o clube?

Eu sou de uma família italiana. Naturalmente são torcedores do Palmeiras. E falo isso com toda a sinceridade. Nasci palmeirense, assim fui até a adolescência. Quando jogava salão pelo Banespa, fui convidado para fazer um teste no Palmeiras. Cheguei lá, mas não me deram muita bola. Fiquei chateado e disse que iria jogar no maior rival. Um conhecido da minha família conseguiu uma oportunidade para mim no Corinthians. E lá no Parque São Jorge nem precisei fazer peneira, pois permitiram que eu ficasse um tempo para mostrar meu talento. Me trataram muito bem no Corinthians e me conquistaram, me cativaram. Hoje falo sem a menor dúvida: amo o Corinthians.

Qual a análise que você faz do período sem títulos?

Cá entre nós, demos um azar danado. Nosso time era bom, mas jogamos na mesmo época do Santos de Pelé, do Palmeiras da Academia, não era mole. Também nunca tivemos no banco um governador do Estado, como era o caso do São Paulo com o Laudo Natel.

Você já superou bem aquele problema com a torcida?

Na realidade eu nunca tive problemas com a torcida. Sempre saía dos treinos a pé, andava pelas ruas sem segurança e nunca fui hostilizado. Acontece que cometemos alguns erros naquela final contra o Palmeiras. Um deles, por exemplo, foi ter levado o jogo final para o Morumbi, que estava com o gramado muito ruim, uma lama só, e isso prejudicou mais a nossa equipe. Nada contra o Sylvio Pirillo, mas se o nosso técnico fosse o Brandão, duvido que iríamos jogar no Morumbi. Ficamos sabendo no dia do jogo. Até disse, "como assim?". Mas na época o Matheus (Vicente Matheus, presidente corintiano) estava mais preocupado com o dinheiro da renda. E jogar no Morumbi dava mais dinheiro.

Então de onde veio essa história de você ser o responsável?

Tudo o que eu mais queria era vencer um título com o Corinthians. Havia uma expectativa muito grande nossa e, claro, da torcida. Naquela época não era como agora, que o campeonato acaba e três dias depois você já tem um jogo por outra competição. Então a imprensa ficava explorando aquele resultado por um tempão. E um jornalista da época, o J. Hawilla, que estava na Bandeirantes, fez umas três ou quatro reportagens que não foram boas para mim. Aí você pega a torcida carente, triste, e começa a passar esse tipo de informação, acaba manipulando e induzindo a opinião pública. Recentemente, mais de 30 anos depois, o Hawilla veio falar comigo e pediu desculpas.

Você se considera o melhor jogador da história do Corinthians?

(risos) Rapaz, dizer isso é complicado para mim.

Então mudamos a pergunta. Quem jogou mais do que você?

(risos). Olha só, não sei, mas tivemos grandes jogadores, como Cláudio, Baltazar, Gilmar...

Qual foi melhor jogador com quem você já jogou no Corinthians?

Eu fiz uma ótima dupla com o Tião. Jogamos juntos durante anos. Também joguei no início com Dino Sani.

E o melhor técnico?

Tive alguns, mas destaco o Brandão (Oswaldo Brandão).

Técnicos e jogadores costumam dizer que jogar no Corinthians é diferente. Isso é papo só para ficar de bem com o torcedor ou tem algum fundamento?

Isso é a mais pura verdade. Não é só para jogar para a torcida, não. Veja o exemplo do que aconteceu em 1976. Tudo bem, vários clubes levam torcedores quando jogam fora. Mas uma coisa é você motivar 800, mil pessoas. Mas ali foram 70 mil. Você tem ideia do que é dividir um estádio como o Maracanã? Toda torcida cobra, mas no Corinthians a pressão é muito maior. Senti isso quando fui para o Fluminense. A vida nas Laranjeiras era muito mais tranquila. Até estranhei.


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