Erro de ex-premiê foi sua aliança incondicional com Bush
Dizer que Tony Blair entendeu errado o interesse nacional, no caso do Iraque, e argumentar que esse foi o erro fundamental de seu mandato como premiê, é verdade. As coisas que vêm sendo ditas hoje, porém, dão a sensação de um eufemismo perverso.
O exagero é tão grande que o ódio a Blair se tornou tão forte, em alguns lugares, que qualquer pessoa que tente defendê-lo precisa lutar para ser ouvida e quase nunca é levada a sério. No entanto, precisamos ser ouvidos. E, talvez, ainda sejamos ouvidos e por um número grande de pessoas.
Somente 29% dos eleitores britânicos acham que o Iraque foi um erro de Blair, com base numa pesquisa da Politics Home. A Grã-Bretanha trabalhista, que elegeu Blair e o seu partido três vezes (e - quem sabe? - talvez o elegesse novamente se houvesse oportunidade), parece estar menos interessada.
Todos nós temos uma mistura de virtudes, vícios e muitas outras coisas no meio. Blair não é diferente. No momento, o mercado está interessado exclusivamente nos seus vícios. Mas, mesmo no caso do Iraque, em que ele, no final, cometeu um grande erro, o quadro é mais contraditório do que com frequência se admite.
Blair estava certo ao atacar Saddam Hussein. Agiu corretamente quando apoiou uma ação mais severa da ONU contra o Iraque. Estava certo em temer os riscos das armas de destruição em massa nas mãos de tiranos e terroristas.
Estava certo também diante das grandes falhas da ONU, expostas principalmente em Ruanda, quando o ex-premiê defendeu uma doutrina mais ampla de intervenção internacional em Estados catastróficos.
Muitas pessoas estarão mortas até que essa ideia seja retomada inteligentemente. O julgamento de Blair foi errado quanto a dois aspectos importantes, ambos mais políticos do que morais ou legais. Em primeiro lugar, ele errou ao acreditar que todos aqueles objetivos se juntavam e justificavam o fato de a Grã-Bretanha dar tamanha prioridade à invasão do Iraque, em março de 2003.
Em segundo lugar, ele também errou quando deixou que a credibilidade interna do único governo britânico de centro-esquerda dos tempos modernos que venceu o desafio de uma reeleição fosse colocada em risco num espetáculo secundário no estrangeiro que certamente provocaria opiniões discordantes entre os britânicos.
Em vez de repetir quem disse o quê sobre o Iraque - com certeza há poucos segredos de grande significado sobre o Iraque a serem ainda revelados -, a Comissão Chilcot deveria analisar questões de maior importância relativas a Blair e a seus subordinados.
Primeiro, como e por que um governo de centro-esquerda se envolveu de maneira tão imprudente numa relação militar subserviente com o mais direitista, unilateralista e internacionalmente tóxico governo dos EUA de todos os tempos?
Em segundo lugar, como e por que um líder trabalhista, que se esforçou com tanto afinco, se dispôs a jogar tudo isso fora numa aventura neoconservadora? Até hoje, essas questões são difíceis de serem respondidas satisfatoriamente. Certamente, não seria apenas para criticar Tony Blair.
A resposta pode começar a ser encontrada entendendo que o problema, na verdade, foi a política dos trabalhistas em relação aos EUA, e não ao Iraque. Talvez esse apoio devesse ser dado a um governo americano mais digno de um estadista, na esteira dos atentados do 11 de Setembro.
A classe política britânica como um todo, porém, não conseguiu reconhecer que o governo Bush era diferente. Por isso, os interesses pessoais e coletivos de nossos diplomatas e militares foram, no mínimo, tão culpados quanto os nossos políticos, que se impressionam muito facilmente com os EUA.
*Martin Kettle é colunista do jornal "The Guardian"
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