
Escassez de alimentos
A crise global está derrubando o consumo e os preços, mas isso não está valendo para os alimentos. Ao contrário, nos dois últimos meses aumentaram as advertências sobre a iminência de escassez.
Apenas em agosto, os preços dos alimentos subiram 5%, medidos pelo índice da FAO, que é a divisão das Nações Unidas encarregada de supervisionar questões ligadas à agricultura e à segurança alimentar do planeta. Para examinar a extensão do problema e sugerir providências, a FAO convocou uma reunião de especialistas, a ser realizada dia 24 deste mês, em Roma.
O caso mais grave está na área do trigo, cujos preços subiram 22% no ano. As projeções oficiais indicam que, em 2010, a produção mundial cairá cerca de 5%, de 681 milhões de toneladas para 646 milhões de toneladas. As terras agricultáveis ao redor do Mar Negro concentram nada menos que 30% da oferta mundial e uma forte seca complicou as coisas por lá. A Rússia suspendeu as exportações em agosto e avisou que a restrição pode se estender 2011 adentro. A seca é também a principal razão para a queda da produção na Argentina. Outros problemas climáticos, como chuvas demais e inundações, são apontados como fatores de quebra de safra na Alemanha, no Canadá e no Paquistão.
O governo da China, que ainda provê 95% de suas necessidades de alimentação com produção local, já havia decidido reforçar os estoques dos principais grãos (e não apenas de trigo) e avisou que prepara medidas adicionais que deverão racionalizar o consumo.
Ainda é cedo para prever escassez tão forte quanto a de 2008. Mas o medo de que isso se repita está levando os governos a reforçarem os estoques.
O crescimento da percepção de escassez e de mais uma temporada de alta dos preços dos grãos ocorre na fase imediatamente anterior ao início do plantio de primavera no Brasil. É forte estímulo para o agricultor no Centro-Sul, que se prepara para bater recordes de produção. Desse ponto de vista, o aumento dos problemas com o suprimento de alimentos ao redor do mundo se apresenta como novo desafio. A dificuldade está na precariedade da infraestrutura em armazenagem, transportes, instalações portuárias e distribuição de insumos agrícolas.
Não se pode ignorar o provável impacto da alta adicional de preços dos alimentos no custo de vida do brasileiro. Mas, no caso do trigo, o problema maior não deverá ser o de uma disparada dos preços, mas o de garantir suprimentos.
O Brasil consome pouco mais de 10 milhões de toneladas por ano, das quais produz apenas metade, 5,4 milhões. Se for confirmada a corrida global em direção à formação de estoques, é possível que os importadores encontrem dificuldades para garantir encomendas. A Argentina, tradicional fornecedora de trigo para o Brasil, está segurando o produto. Das 12 milhões de toneladas de trigo que deverá colher este ano, o governo autorizou exportar apenas 3 milhões.
E, se o aprofundamento da escassez se concretizar, será inevitável o aumento das pressões sobre os Estados Unidos e sobre o Brasil para reduzir a utilização de alimentos (milho e soja) para a produção de biocombustíveis (etanol e biodiesel).
CONFIRA
A conta da guerra
O Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz, advertiu no Washington Post de domingo que o custo da guerra do Iraque está longe de se limitar aos US$ 3 trilhões a que chegaram os cálculos oficiais.
O que ainda vem aí
Nessa conta, avisa Stiglitz, é preciso colocar ainda as despesas futuras com os tratamentos dos mutilados e de outros veteranos de guerra.
Outros custos
E ele enumera outras perdas, que coloca na categoria de "custos de oportunidade".
Petróleo e dívida
A guerra do Afeganistão ficou muito mais complicada porque os Estados Unidos tiveram de desdobrar esforços militares no Iraque. Os preços do petróleo não teriam subido de US$ 25 dólares por barril para US$ 140 em 2008 pela suspensão da produção no Iraque. Nem a dívida pública americana teria saltado de US$ 6,3 trilhões em março de 2003 para US$ 10 trilhões em 2008.
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