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Espelho vivo de machos

Os Íntimos, de Inês Pedrosa, aborda universo masculino a partir de monólogos interiores

06 de novembro de 2010 | 0h 00
Manoela Sawitzki - O Estado de S.Paulo

Cinco amigos se reúnem uma vez por mês numa tradicional tasca lisboeta - a única onde ainda se pode fumar. Ao redor da mesa coberta por toalha de papel, são "todos fenomenais". Degustam vinhos, porções fartas de colesterol, e galanteiam a filha do proprietário enquanto a tela plana e enorme (para que nenhum lance da partida de futebol lhes escape) garante instantes de glórias, derrotas e insultos. Cinco vozes que se complementam numa intimidade imbricada, necessária, e, sobretudo, corriqueira e livre. Essencialmente masculina. É sobre a essência e a superfície desta geração viril que testemunhou o desmantelamento da herança colonial, a ascensão da ditadura e a nova ordem sexual que trata Os Íntimos, novo romance da portuguesa Inês Pedrosa.

Diferente de suas obras anteriores, marcadas pelo fluxo caudal e um lirismo mais pungente, essa se afina com o microcosmo que explora e cinde monólogos interiores, momentos de confissões francas e perturbadoras - portanto, inconfessáveis -, com golpes de humor e ironia afiada. A narrativa, composta de fragmentos, é orquestrada por Afonso, oncologista, e cantor de relativo sucesso. Homem vaidoso para seus pares, e egoísta, segundo suas mulheres, sintetiza aquele oásis mensal, onde são vedados os assuntos profundos. "O barulho das vozes dos amigos sossega-me. Não o que dizem. Às vezes nem os ouço. Não é para nos ouvir que nos encontramos - apenas para estarmos juntos". Augusto é "um homem fácil", de "bom perder", ontem, militante comunista, hoje, empresário da indústria fonográfica. Guilherme, "um romântico e um predador". Pedro, um "melancólico ensimesmado". Filipe, o artista frustrado, "monogâmico obsessivo". Eles olham-se como se estivessem diante do espelho. "Cada um por si, e um minuto de televisão para todos".

As mulheres são ao mesmo tempo presas e carrascos. Embora o grupo prefira lhes sonegar o mérito do controle, flanam sobre seu percurso como mal necessário e bem a ser perseguido. Eles não dizem entre si, contudo, sabem que se reúnem no exato dia da morte de Leonor, a primeira esposa de Afonso, que se extinguiu em suas mãos na mesa de cirurgia, e não amou como poderia. A tasca é o refúgio longe das mortes, reais e simbólicas, e a celebração de uma vida que eles querem crer que controlam. Mas a certa hora as portas se fecham, e mesmo que sua mesa seja a última a se desfazer, é preciso fechar a conta e regressar, menos fenomenais do que gostariam, frágeis, culpados, hesitantes, para um mundo que está muito além do seu domínio.

MANOELA SAWITZKI É FICCIONISTA, AUTORA DE SUÍTE DAMA DA NOITE (RECORD)