''Estado de exceção deve prolongar crise''
Kevin Casas-Zamora: ex-vice-presidente da Costa Rica e especialista do Brookings Institution; analista diz que medida impede reconhecimento internacional das eleições de novembro e atrapalha solução negociada
É possível ver saída para a crise?
Até agora havia ao menos uma data na qual ela poderia se resolver: as eleições de novembro. Sempre pensei que preservar a legitimidade dessa votação - garantindo que ela fosse livre e transparente - seria a chave para o fim da crise. A comunidade internacional acabaria aceitando seus resultados. Quando o governo (de Roberto) Micheletti decretou estado de sítio, houve uma virada nesse cenário. Foi uma decisão irracional. Uma loucura, que torna difícil defender as eleições e deve prolongar a crise.
Qual a possibilidade de uma onda de violência?
É grande. Honduras é um país muito armado - um legado dos conflitos centro-americanos dos anos 80. Também tem uma das taxas de homicídio mais altas do mundo. Podemos ter uma explosão de violência como do conflito que levou à queda do governo Gonzalo Sánchez de Lozada, em 2003, na Bolívia.
E uma guerra civil?
A possibilidade é remota, porque os dois grupos precisariam de mais coesão e preparo. E a região também não toleraria um conflito sem intervir.
Zelaya tem apoio para uma insurgência?
Há dúvidas sobre isso. Mas a decisão de decretar estado de sítio no dia em que ele convocou um protesto indica que, no mínimo, o governo de facto ainda teme seu poder de mobilização.
Foi por isso que eles decretaram estado de sítio?
Pode ser por isso. Mas também por outras razões. Em Honduras há um alto grau de paranoia, que leva a uma falta de racionalidade dos dois lados - cada vez mais por parte do governo de facto. Antes dos aliados de Micheletti enfrentarem a oposição da comunidade internacional, eles já achavam que Hugo Chávez se levantava todas a manhã pensando como comeria Honduras no café. Além disso, o anúncio pode estar relacionado à recusa da comunidade internacional em reconhecer as eleições. Eles pensaram: "Não vale a pena se comportar bem." Foi um erro de cálculo.
Por quê?
Tudo seria diferente se o governo de facto fosse menos truculento, se respeitasse a embaixada brasileira e enviasse a polícia para a casa de Zelaya para encaminha-lo à Justiça, em vez de o Exército o mandar de pijama para a Costa Rica. A posição de alguns países poderia ter sido mais flexível.
Há a possibilidade de uma invasão da embaixada brasileira?
Há alguns dias e em outras circunstâncias pensar nisso seria uma loucura. Hoje, nada pode ser descartado, justamente porque os hondurenhos estão se comportando de forma irracional e sem respeitar a comunidade internacional.
O que aconteceria?
Uma escalada das tensões e dos conflitos. E, em resposta, sanções muito mais fortes contra Honduras.
Como é possível pressionar o governo de facto a negociar?
Endurecendo as sanções - e nisso os EUA teriam um papel central. Honduras depende do mercado americano, destino de 70% de suas exportações.
Os EUA estariam dispostos a aumentar as sanções? Por que têm resistido até agora?
A atitude dos EUA têm sido ambígua. Provavelmente, a Casa Branca tenta evitar uma discussão interna sobre o tema, num momento em que o governo tem muitas frentes de negociação abertas sobre a reforma da saúde e o Afeganistão. Além disso, em algum momento alguém acabará fazendo o seguinte paralelo: é hipócrita levantar o embargo a Cuba e castigar Honduras. Isso seria um problema.
Zelaya está incitando uma insurreição da embaixada brasileira. O Brasil pode sair mal dessa situação por isso?
O governo brasileiro deve lidar com isso com muito cuidado. Francamente, para o bem da causa de Zelaya é melhor que o presidente de direito fique quieto do que saia dizendo que está sendo atacado por comandos israelenses e ondas supersônicas enlouquecedoras de alta intensidade. Isso é também o melhor para o Brasil.
Quem é:
Kevin Casas-Zamora
Já ocupou a vice-presidência da Costa Rica
Articulista da revista americana "Foreign Policy"
É pesquisador do Brookings Institution, em Washington
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