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''Estou perplexo''

Ex-músico da OSB, violoncelista Antonio Meneses pede posição mais humana da direção do grupo

02 de abril de 2011 | 0h 00
Antonio Meneses - O Estado de S.Paulo

Nos últimos dias, tenho recebido com preocupação as notícias vindas do Rio de Janeiro sobre a crise na Sinfônica Brasileira. Desde o início do embate entre músicos e direção, colegas e amigos me procuraram pedindo que eu me posicionasse a respeito das audições. Se não o fiz até agora, foi por acreditar que em situações como essa há sempre dois lados a serem ouvidos - e também por ter a esperança de que uma solução conveniente a todos poderia ser obtida, o que parece hoje improvável com a notícia de que a demissão de mais da metade da orquestra está prestes a se tornar realidade.

Durante dois anos, no início da minha carreira, fui músico da Sinfônica Brasileira. Desde aquela época, voltei a me apresentar com o grupo como solista em diversas ocasiões, algumas delas sob a batuta do atual diretor artístico, Roberto Minczuk, a quem procurei em particular, recebendo de volta uma resposta insatisfatória, logo que os conflitos tiveram início. Por tudo isso, me preocupou a dimensão que o caso ganhou, inclusive internacionalmente, passando ao mercado imagem desfavorável sobre o ambiente musical brasileiro.

A Fundação OSB poderia ter buscado uma maneira mais diplomática e humana de lidar com o dilema criado por ela ao impor aos artistas provas de avaliação, com toques de autoritarismo. Elevar o nível da Sinfônica Brasileira é um desejo de todos os músicos e também daqueles que frequentam os concertos, não há dúvida. Mas não vejo como isso pode ser alcançado do dia para a noite, com a demissão de mais de 40 artistas. Por que a pressa, depois de seis anos desta gestão artística? A instituição importante que é a orquestra é muito anterior à atual gestão e sabemos que a OSB continuará existindo. Porém, com um pouco mais de cuidado e civilidade, esse seria um capítulo menos nebuloso da história do conjunto - e daqueles que hoje a dirigem. Afinal, sob que signo se cria uma nova OSB com 40 artistas demitidos?

Estou perplexo, acompanhando a situação constrangedora que colegas e amigos meus como Alceu Reis, David Chew, Michael Bessler e muitos outros artistas estão passando. Vejo esse quadro com tristeza e aflição.

Tenho quatro irmãos músicos de orquestra, dedicados inteiramente aos empregos que têm. Conflitos entre regentes e corpo orquestral são situações comuns.

Eu mesmo testemunhei muitos deles em 40 anos de carreira, em grandes orquestras e em grupos menores. Quando toquei pela segunda vez com o maestro Herbert Von Karajan, por exemplo, a atmosfera na Filarmônica de Berlim já apresentava nuvens negras, era um momento de grande desgaste, com antipatias e piadinhas internas. Mesmo assim, não houve desrespeito público, não houve ameaças, não houve imposição de testes nem humilhação aos músicos. Assim como em qualquer relação humana, altos e baixos acontecem; o que não pode acontecer é agressão e falta de respeito. Um verdadeiro líder segue adiante, criando e mantendo padrão de qualidade apenas com o seu trabalho - que deve ter excelência acima e além de qualquer exigência aos seus subordinados, além, claro, da competência emocional e da empatia para exigir disciplina e guiar um grupo de artistas em direção ao bom desempenho.

O carinho que temos pela Sinfônica Brasileira é imenso. E por isso não paramos de acreditar em uma solução pacífica, que demonstre respeito pelos músicos; uma solução hábil, diplomática e humana a ponto de fazer com que qualquer músico, qualquer solista, possa voltar a tocar com a Sinfônica Brasileira de cabeça erguida, podendo encarar nos olhos seus colegas, sabendo que os seus direitos foram preservados, se não como profissionais, pelo menos como seres humanos. É o que todos nós artistas - e, tenho certeza, também o público - esperamos. E merecemos.

ANTONIO MENESES É VIOLONCELISTA, EX-INTEGRANTE DO TRIO BEAUX-ARTS E PROFESSOR DO CONSERVATÓRIO DE BERNA.


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