ESTRAGOS COM O DINHEIRO ALHEIO
As plateias de NY vão adorar odiar Frank Langella na peça Man and Boy
Quando Frank Langella faz papel de bom, ele é o fino; mas quando faz papel de mau, é soberbo. Depois de se livrar do halo que usou como o santificado Sir Thomas More em A Man for All Seasons, em 2008, Langella recuou para o lado escuro do estilo. E desta vez é um vilão que as plateias de NY vão amar odiar: um financista sem alma que faz os maiores estragos com dinheiro alheio.
Eu ouvi falarem o nome de Bernard Madoff mais de uma vez, durante o intervalo, no saguão do American Airlines Theater, onde o revival de Maria Aitken do drama Man and Boy (1963) de Terence Rattigan estreou há uma semana. E pode ter sido, em parte, os paralelos tópicos que levaram a Roundabout Theater Company a reencenar essa obra menor de Rattigan, ambientada em 1934 e inspirada na queda espetacular de Ivar Krueger, um magnata internacional daquela época.
Mas a principal razão de ser dessa produção é a oportunidade que ela confere a seu astro para explorar a patologia do poder. Poucos intérpretes são tão bons como Langella para usar o narcisismo instintivo do ator para captar a egomania que alimenta (e por vezes derruba) o extremamente bem-sucedido. Langella é Gregor Antonescu, "rei do rádio e do petróleo de origem romena".
"Confiança e liquidez", sua personagem dirá mais tarde, é a chave para se permanecer à tona nos negócios. E Langella traduz essas palavras de ordem em ações que mais ou menos apagam todos os demais à vista. Mas a produção de Aitken não consegue mesmo é disfarçar a precariedade desse caso de amor freudiano frustrado de um pai e um filho alienados.
Gregor, percebem, tem um filho, e embora a maioria das pessoas suponha que o rebento esteja morto há cinco anos, na verdade, Vassily (Adam Driver) está vivo e com o nome Basil Anthony mora na sordidez de Greenwich Village. É ali que Gregor - perseguido pela imprensa e, talvez, pela polícia também - busca refúgio numa noite fria. O que significa que Basil, agora um homem adulto que nunca cresceu, finalmente terá de enfrentar o legado do pai que ele idolatra e detesta.
Rattigan (1911-1977) especializou-se no que chamou de "o vício inglês", que era, assim ele disse, "a incapacidade do inglês de expressar emoção". Por duas décadas, a partir de meados dos anos 30, ele usou essa defeito nacional como base para uma série de peças (Separate Tables continua sendo a mais conhecida) que fizeram dele o rei do West End de Londres.
Man and Boy não está no mesmo nível que sua After the Dance (1939), que mereceu uma produção soberba no National Theater em Londres no ano passado, ou The Deep Blue Sea (1952), que foi adaptada como um novo filme estrelado por Rachel Weisz.
Escrita quando Rattigan tinha plena consciência de ser visto como ultrapassado, Man and Boy é uma mistura incômoda de truques audaciosos de enredo e diálogos concisamente suaves.
A peça começa com a franqueza dos anos 60 de Basil e sua namorada, Carol (Virginia Kull), relaxando no aconchego pós-coito. Mas as personagens que se introduzem em seu idílio boêmio trazem consigo um quê da mundanidade da alta sociedade.
Os visitantes incluem Sven Johnson (Michael Siberry), o truculento e devotado assistente de Gregor e a mulher empetecada de Gregor (Francesca Faridany). Há também Mark Herries (Zach Grenier), magnata com uma vida secreta incômoda, e seu contador zeloso (Brian Hutchison). Eles são amadores perto do mefistofélico Gregor.
O momento mais chocante dessa produção ocorre quando a recusa de Basil do abraço de seu pai dá a Gregor sua grande ideia de conquistar Herries, o magnata. Essa exploração refletida do próprio filho deveria, em tese, ser repulsiva. Mas Langella exibe uma intensidade de foco que, enquanto o estamos observando, supera quaisquer considerações morais. O fato de acreditarmos nele é um triunfo pessoal de Langella. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
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