Evo exige ''fervor patriótico'' da mídia
Em meio a disputa com o Chile por saída marítima, jornais, rádios e tevês deverão veicular mensagens que promovam a educação cívica
LA PAZ
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O presidente da Bolívia, Evo Morales, emitiu ontem um decreto para obrigar os meios de comunicação do país a mostrar "fervor patriótico" e a tocar hinos marciais, em apoio a sua estratégia de pressionar o Chile em tribunais internacionais por uma saída "soberana" para o mar.
"A imprensa escrita, entidades públicas e unidades militares deverão em seus veículos impresso e online divulgar mensagens que promovam a educação cívica e realcem o fervor pátrio sobre a reivindicação marítima", diz a norma, publicada no Diário Oficial.
Os meios de comunicação não poderão definir o conteúdo das mensagens. O Ministério das Comunicações será responsável pelos textos.
O decreto determina também que os meios audiovisuais executem a Marcha Naval, hino que fala da reivindicação marítima, de segunda a sexta-feira, no início e no final de suas transmissões. Na semana que antecede o Dia do Mar, em 23 de março, o hino deve ser executado duas vezes por dia. A data lembra a derrota para o Chile na Guerra do Pacífico, que custou ao país a Província Litoral, com 400 km de costa e acesso ao Pacífico.
No Chile, o ministro de Relações Exteriores Alfredo Moreno evitou comentar o decreto que obriga a imprensa boliviana a apoiar a iniciativa. "A Bolívia é quem tem de decidir que caminho vai seguir nesse assunto", disse. "O Chile está sempre disposto a considerar tudo que possa solucionar problemas e avançar no interesse mútuo entre os países."
Disputa judicial. Após assumir a presidência, em 2006, Evo iniciou negociações bilaterais com o Chile para que a Bolívia retomasse uma saída para o mar, mas elas não avançaram.
Em março, o presidente boliviano anunciou que levaria a disputa a tribunais internacionais. Na terça-feira, Evo disse que pensa em pedir ajuda ao juiz espanhol Baltazar Garzón, conhecido por emitir um mandado de prisão internacional contra o ex-ditador chileno Augusto Pinochet.
"Penso em convidá-lo (para dar assessoria)", afirmou o presidente, que se reuniu com Garzón em uma viagem à Espanha. Segundo ele, a experiência do magistrado o surpreendeu.
Ainda de acordo com Evo, seu governo formará uma equipe de especialistas bolivianos e internacionais, entre eles argentinos e nicaraguenses, para formalizar o recurso no Tribunal Internacional de Justiça. O presidente reclama que o Chile lhe fez perder tempo e diz nunca ter recebido uma proposta sobre a disputa marítima. Segundo Evo, havia um entendimento melhor com a ex-presidente Michelle Bachelet, do que com o atual líder, Sebastián Piñera.
Em outubro, Evo e o presidente do Peru, Alan García, assinaram um acordo para a concessão do porto peruano de Ilo à Bolívia. / AP e EFE
PARA ENTENDER
A Guerra do Pacífico (1879-1883) opôs o Chile ao Peru e à Bolívia e foi motivada por disputas territoriais sobre o Deserto do Atacama. As forças chilenas tomaram a província boliviana de Litoral e invadiram o sul do Peru, ocupando Lima em 1881. Um tratado de paz foi assinado em 1883. A Bolívia perdeu a saída para o mar e o Peru cedeu as províncias de Arica e Tacna - esta última retomada em 1929 - ao Chile.
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