Ex-promotor Igor preso após 8 anos da condenação
Acusado de matar a mulher, grávida, em 1998, ele foi sentenciado a 16 anos de prisão, mas alega inocência
O ex-promotor de Justiça Igor Ferreira da Silva foi preso ontem, às 16 horas, na Vila Carrão, zona leste. Um telefonema anônimo ao plantão do 31º Distrito Policial foi responsável por acabar com uma busca que durava desde o dia 18 de abril de 2001, quando Igor foi condenado a 16 anos e 4 meses de prisão pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Acusado de matar em 1998 a mulher grávida, a advogada Patrícia Aggio Longo, o ex-promotor ainda se diz inocente. Afirmou ao delegado Nelson Silveira Guimarães, titular da 5ª Delegacia Seccional (zona leste), crer em Deus. Tentará provar a inocência, mas, se não conseguir, vai cumprir a pena. "É o meu destino", teria concluído.
Um homem abatido e magro. Igor parecia atordoado ao sair da sala de Guimarães e se dirigir ao cartório da delegacia para cumprir as formalidades legais de sua captura. Fazia duas horas que a delegada Adanzil Limonta lhe havia dado voz de prisão. A policial recebera o telefonema no 31º Distrito Policial, no Carrão, zona leste de São Paulo. Uma voz masculina dizia que o ex-promotor estava na Rua Dentista Barreto, a quatro quarteirões dali.
A policial apanhou o carro particular e, acompanhada a distância por dois investigadores em uma viatura, foi verificar a informação. Parou, desceu e se aproximou do homem. "Vi que era ele e perguntei se ele era o promotor Igor. Ele disse que sim e eu dei a voz de prisão", contou. À delegada, o ex-promotor fez um pedido: ser conduzido em seu carro e não na viatura. Adanzil assentiu.
Igor não quis revelar o que fazia na hora da prisão. O mistério sobre quem o denunciou intriga a polícia. Ao ser levado ontem à cadeia onde dormiria, Igor disse: "Eu me entreguei." Seu pai, o advogado Henrique, tem certeza disso. Ele e a mãe do ex-promotor, a dona de casa Salete, defendiam essa solução. Consideravam impossível o filho ficar 20 anos foragido. Deprimido e com problemas de saúde, o ex-promotor queria pôr um fim nessa situação. Estava cansado de ser perseguido. Há um mês e meio, policiais revistaram o apartamento de sua mãe, em São Paulo. Em 2008, haviam revirado a chácara do pai. A família não tinha sossego.
Sem algemas, o ex-promotor chegou às 16h30 à 5ª Delegacia Seccional. Pediu para ir ao banheiro. Disse aos policiais que estava sem dinheiro e ficara escondido em uma fazenda no interior. Desmentiu boatos de que tivesse passado por Santa Catarina, onde teria sido visto praticando asa-delta, ou na Argentina, onde teria ido esquiar. Tudo mentira. Lenda.
Não muito depois, chegou à delegacia o secretário da Segurança, Antonio Ferreira Pinto. Queria cumprimentar os policiais. "A prisão era questão de honra e um desafio para a polícia e para o Ministério Público."
De fato, a fuga de Igor era um espinho na garganta do Ministério Público Estadual (MPE). O ex-promotor havia recebido da Justiça o direito de responder em liberdade ao processo e não compareceu ao tribunal no dia em que seu destino foi decidido. Não ocorreu a ninguém pôr a polícia para vigiá-lo - a hipótese de uma fuga parecia improvável. Mas a condenação veio e o então promotor sumiu.
"Isso nos incomodava. Havia um constrangimento grande no seio da instituição", disse o procurador-geral de Justiça, Fernando Grella Vieira. O MPE pedira em julho à Secretaria da Segurança que a polícia se esforçasse para prendê-lo. Grella não escondeu a satisfação. "É um sentimento de dever cumprido. Agora ele deve cumprir sua pena como cidadão comum." Igor deve ir para Penitenciária de Tremembé (SP).
O caso do ex-promotor tem outras particularidades. Mesmo com a condenação, a família de Patrícia continua a defender sua inocência de Igor. Angélica Aggio Longo, irmã da vítima, disse que a posição da família não mudou. Eles não aceitam o exame de DNA que atestou que Igor não era o pai da criança que a mulher esperava - ela estava no 7º mês de gestação.
"Continuamos com a mesma opinião", disse Angélica ao Estado. As irmãs passaram juntas a tarde anterior ao crime, em 4 de junho de 1998, na casa dos pais, Maria Cecília e José Aggio Longo, na zona norte de São Paulo. "Soubemos da prisão hoje, mas para a gente não importa, é coisa da polícia. O que aconteceu, aconteceu, para a gente o que importa é a morte da Patrícia. A prisão gera manchete, mas não tem nada a ver com a gente."
COLABOROU RODRIGO BRANCATELLI
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