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Explorando limites em busca da identidade

Uma mulher encara seus dilemas em A Vida Íntima de Pippa Lee, baseado em livro escrito pela diretora Rebecca Miller

18 de dezembro de 2009 | 0h 00
- O Estadao de S.Paulo

Logo no começo de Abraços Partidos, o novo filme de Pedro Almodóvar, o dublê de cineasta e escritor, Matteo Blanco/Harry Caine, conta a história do filho downiano do dramaturgo Arthur Miller, renegado pelo pai, mas que um dia foi assistir a uma de suas conferências e no final se apresentou, dizendo ser muito orgulhoso dele. Blanco/Caine diz que gostaria de fazer um filme sobre o assunto. Não seria uma história de vingança, mas de superação. Filha do dramaturgo Miller, a romancista e escritora Rebecca Miller não fala do pai nem do irmão nem do marido - é casada com Daniel Day-Lewis.


Veja também:
Trailer de A Vida Íntima de Pippa Lee

Isso ficou mais uma vez claro no Festival de Berlim deste ano, no qual A Vida Íntima de Pippa Lee integrou a seleção oficial. A assessoria informava - concentrem-se no filme, por favor. Só que, falando do filme, não há como não falar da vida privada da própria diretora, que contou a mesma história, antes, como livro. Pippa Lee é sobre essa mulher, casada com um homem mais velho, cuja vida se desintegra. Casamento, laços de sangue, tudo vem à tona no turbilhão em que a vida de Pippa Lee se transforma, neste momento particular. Já era um pouco o tema de A História de Jack e Rose, o longa anterior de Rebecca (com Daniel Day-Lewis).

Pippa Lee discute a identidade. Marcada pela infância complicada, a heroína se refugia à sombra do marido, que não é apenas 30 anos mais velho como também é o último dos grandes editores dos EUA. Nesse refúgio seguro, Pippa Lee desabrocha, mas como a personagem de Kristin Scott Thomas - só que não submetida a uma transformação tão radical quanto a de Partir -, ela é o apêndice burguês do marido. A crise do casamento, a insatisfação, força Pippa Lee a encarar os dilemas da própria identidade. A primeira surpresa, quando o marido decide abandonar Nova York, é descobrir que ele tem uma amante. Pippa Lee sente-se liberada para explorar os próprios limites, o que, inclui, obviamente, a própria sexualidade.

Por que transformar em filme o próprio livro? "São experiências estéticas diferentes", analisa a diretora. "Não fui totalmente fiel ao livro porque o cinema trabalha no plano do concreto. É diferente viajar no livro pela mente e depois expressar essa viagem por meio de ações, o que equivale dizer - palavras e imagens. Quem leu o livro e chega com ideias preconcebidas ao filme pode se surpreender." Rebecca Miller conseguiu reunir um elenco de sonho - Robin Wright Penn, Julianne Moore, Keanu Reeves, Alan Arkin, Winona Ryder, Monica Bellucci, etc. Seu desafio, ela admite, era fazer com que a transformação de Pippa Lee fosse gradativa. "Creio que sua maior conquista, no filme, é a libertação do próprio medo. Robin (Wright Penn) foi maravilhosa. Ela entendeu o processo e faz com que o corpo de Pippa Lee mude à medida que ela adquire mais consciência. É um filme em que o emocional é forte e se traduz no físico."

Rebecca é um pouco mais jovem - tem 47 anos - do que sua personagem, que tem 50. Apesar das restrições da assessoria, ela termina falando de si, do pai e do marido. "Arthur (Miller) era meu pai, só penso nele assim, embora como intelectual me interesse muito a construção e repercussão de sua obra. Se isso é bom ou mau para minha carreira, se ele me ilumina ou projeta uma sombra, confesso que são questões que só surgem quando dou entrevistas." O fato de ser casada com Day-Lewis tem seu aspecto positivo. "Ele cobra menos quando trabalha comigo", ela ri. Mas não lhe passa pela cabeça querer concorrer, no cinema, com o marido cujo cacife vem dos dois Oscars que recebeu (por Meu Pé Esquerdo e Sangue Negro). "Seria loucura e, além do mais, teria consequências no casamento." É fácil conciliar casamento e carreira? "Quando se tem um marido cooperativo como Daniel, sem dúvida." E o que é mais importante? "Você quer dizer marido e filhos ou livros e filmes? Felizmente, não tenho de escolher. Tudo se integra e completa. O fato de ser mãe se reflete na minha ficção, com certeza. O fato de ser diretora, de comandar uma equipe, também me ajuda em casa. Sei como conciliar minhas jornadas."


Serviço

A Vida Íntima de Pippa Lee (The Private Lives of Pippa Lee, EUA/2009, 93 min.) - Drama. Dir. Rebecca Miller. 14 anos. Cotação: Bom