
Falsos brilhantes
A conversa que o repórter Wagner Vilaron e eu tivemos com Muricy Ramalho, no meio da semana, variou de esquemas táticos a preços de frutas e legumes. Mas um dos temas abordados na entrevista ficou a martelar-me a cabeça. O treinador se diz imune a pressões de empresários, dirigentes & parceiros, e garante que não escala ou afasta jogadores com base nas quantias que custaram nem pensa no lucro ou no prejuízo que podem proporcionar a investidores. Suas escolhas seriam apenas técnicas. Por isso, imagina, atrai antipatias num ambiente cada vez mais ganancioso, anda na corda-bamba e se segura à base de resultados.
Postura valente, que deveria disseminar-se no seu meio com mais vigor do que capim na serra. Embora também mereça um desconto. Afinal, faz parte desse mundo e conhece as regras que movem o circo. Mesmo assim, tomara que continue a desprezar as que considera menos nobres. Muricy tocou em aspecto importante, ao admitir que treinadores se veem obrigados a escalar atletas por interesses econômicos. Não é novidade, isso acontece desde os tempos em que se passava sebo na bola para o couro não ressecar. A mudança está nas cifras e nas pessoas envolvidas nesse negócio. Antes, as decisões de um treinador afetavam apenas o atleta e o clube, então dono do passe. Uma relação em si já suficiente para proporcionar dor de cabeça.
Hoje, o futebol movimenta somas indecorosas - um Cristiano Ronaldo pode valer R$ 250 milhões! - e abriu espaço para profissionais especializados. Uma das consequências da nova realidade: a valorização do "produto" jogador diminuiu a margem de autonomia de técnicos, mais expostos a interferências. Não é à toa que um boleiro de nível médio tem assessoria de imprensa, empresário, procurador, advogado desde as categorias de base. Se virar uma "empresa" mais bem estruturada - entenda-se famoso e talentoso -, contará com preparador físico particular, marqueteiro, contador, motorista, segurança...
O aproveitamento no time em muitos casos independe da habilidade, maior ou menor, no trato com a bola. O jogador se tornou bem que precisa sempre ser valorizado para manter-se no mercado. E a máquina promocional funciona - pelo menos até certo ponto. Porque alguns são tão ruins que desmoronam com o tempo, por mais habilidade que tenham os responsáveis por sua carreira.
A parte que me toca é o papel da imprensa, constantemente tratada como integrante do business. Cansei de ouvir cartola dizer que a boa saúde técnica e financeira de um clube é interessante também para os jornalistas esportivos, porque estão no mesmo barco. Sofisma do tamanho do mito Pelé. Jornalista se sustenta de sua profissão, em sentido amplo, e não de um nicho ou modismo.
Estou vacinado contra lobbies, mas reconheço que são ardilosos e insinuantes. Repare como há necessidade frenética de a todo momento serem produzidos craques, jogadores-de-seleção e similares. Qualquer recém-chegado em um time é reforço, toda semana surgem candidatos a astro, que graças a um drible ou a um gol são tratados como novos Ronaldos. Ou pelo menos assim os vendem gente interessada em sua ascensão e que tenta o aval da imprensa. Muito formador de opinião embarca de boa fé na onda até perceber que em diversas ocasiões lidava com falsos brilhantes.
Não é pecado elogiar aquele rapaz que decidiu um jogo e foi o herói do dia. Como não faz mal uma pitada de ceticismo. O importante é achar a dose certa, que leve à avaliação justa, até à custa de eventuais antipatias, as mesmas das quais se queixa Muricy. É o papel da imprensa, é da vida.
Recaída. O Palmeiras empolgou há uma semana, em duelo histórico com o Santos, e deu a impressão de que iria engrenar. Voltou à rotina dos tropeços no começo da noite de ontem, com os 2 a 0 para a Ponte em casa. Dominou, criou, não aproveitou as chances, vacilou no fim e praticamente jogou fora chances de classificação. Uma parte do calendário de 2010 já foi para o espaço. Que sina!
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