
Figura enigmática
Minha carreira não é tão longa quanto a de colegas consagrados como Antero Greco e Luiz Zanin. Em quase 15 anos no jornalismo, porém, tive a oportunidade de entrevistar personalidades como Pelé, Ronaldo, Gisele Bündchen, Cristiano Ronaldo, Blatter, Beckenbauer e Usain Bolt. Senti-me à vontade com todos. Mas um nome do nosso futebol, admito, me fez balançar algumas vezes.
Refiro-me a Ricardo Terra Teixeira, figura presente dia e noite na mídia nas últimas semanas. O presidente da CBF, ao contrário de boa parte dos dirigentes, faz questão de ignorar a imprensa desde o início de sua ascensão política, debochar dela, não dar nenhuma importância para o que se diz a seu respeito. Apoiou-se, sempre, no poder, na força conquistada com bajuladores de federações e em alguns amigos jornalistas.
Nas coberturas de Copas, Olimpíadas ou simples treinos da seleção, eu costumava ir atrás de Teixeira sempre que o via. Era, afinal, o mais poderoso cartola brasileiro. Tentar entrevistá-lo, no entanto, nunca foi tarefa das mais agradáveis. A começar pela recepção, normalmente com olhar hostil e de desdém. Um de seus hábitos era perguntar para qual empresa de comunicação trabalhava. Às vezes, aceitava responder a duas ou três rápidas questões. Às vezes, dizia que não conversava com o jornal e caminhava a passos largos para fugir da marcação.
Primeiro objetivo alcançado, chegava a hora da entrevista. Arrancar dele um sorriso sempre pareceu missão quase impossível. Durante as respostas, analisava o repórter da cabeça aos pés, observava cada movimento, parecia querer intimidar. Nunca fui capaz de me sentir tranquilo, à vontade ou relaxado a seu lado.
Para não dizer que jamais o vi descontraído, houve uma vez no Paraguai que Teixeira se soltou em público na presença de alguns integrantes da imprensa. Foi em dezembro de 2001, num jantar organizado pela Conmebol, em Assunção, para a realização do sorteio dos grupos da Taça Libertadores. Ele voltava de licença médica. Depois de beber um pouco, fez comentários engraçados e até exibiu um semblante menos carregado no contato com os repórteres.
Os dirigentes, assim como políticos, sempre precisaram da imprensa para divulgar propostas, manifestar ideias, dar explicações, interagir com o público, conquistar imagem simpática. Teixeira nunca deu a menor bola para isso. Sua autossuficiência já era o bastante. Este momento, creio, é o primeiro, em 23 anos no poder, em que não se sente tão seguro.
Os mais próximos dizem que é divertido nas horas de folga, com amigos e familiares. Não consigo, de jeito nenhum, visualizá-lo dessa forma. Teixeira pode dizer a quem quiser que, sob sua gestão, a seleção brasileira ganhou dois títulos mundiais. Na vida pessoal, tem uma família simpática e ótima condição financeira. Nunca entendi por que a CBF o fez um personagem tão amargurado, ranzinza e antipático.
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