'Filiados' tucanos desconhecem partido

Moradores de áreas de baixa renda de São Paulo citam entidades que distribuem leite como possíveis responsáveis por adesão ao PSDB

DANIEL BRAMATTI, JULIA DUAILIBI, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2012 | 03h03

Entre os filiados tucanos aptos a votar nas prévias que definirão o candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo há pessoas que sequer conhecem o partido e que dizem ter passado seus dados eleitorais a entidades das quais recebiam leite distribuído pelo governo estadual, administrado pela legenda. Até simpatizantes do PT estão na lista oficial tucana.

Ao entrar em contato com 40 integrantes da "base" do PSDB nas regiões leste e sul, áreas de baixa renda onde há concentração de "tucanos", o Estado encontrou moradores que ignoravam a condição de filiados.

Cinco mulheres da zona eleitoral Vila Jacuí apontaram entidades associadas ao programa Vivaleite, da Secretaria de Desenvolvimento Social do governo estadual, como possível explicação para seu vínculo com o partido.

Foram citadas a Associação para Qualificação Profissional e Social dos Moradores do Jardim Pedro Nunes (Aqualiprof), dirigida por Wellington Machado, presidente do diretório do PSDB da Vila Jacuí, e a Assocam, presidida por Idevanir Arcanjo de Souza, também filiado ao partido.

A Vila Jacuí - zona eleitoral com maior concentração de tucanos "de carteirinha", conforme mapeamento publicado pelo Estado na semana passada - é região de grande influência do vereador Adolfo Quintas (PSDB).

No final de 2009, o parlamentar participou de um evento de Natal com Idevanir na região onde foram feitas as filiações. Também há mensagem de Wellington Machado elogiando-o em site ligado ao partido. Nas prévias, Idevanir diz que irá apoiar o deputado Ricardo Tripoli. Machado declarou apoio ao secretário Bruno Covas (Meio Ambiente).

Mais de 20 mil pessoas poderão votar nas prévias, marcadas para março. Líderes tucanos temem que a filiação de pessoas sem vínculos com o partido favoreça determinado candidato - estão também na disputa os secretários Andrea Matarazzo (Cultura) e José Aníbal (Energia).

"Não sabia que estava filiada", disse Ana Luiza Miranda Berlink (leia depoimentos nesta página). "Mandaram um cartãozinho com uns folhetos. Como eu faço muito cadastro de casa própria, pensei que fosse isso. E meus filhos recebiam leite daquele programa. Pode ter sido alguma dessas vezes", declarou.

Outros dez eleitores se surpreenderam ao ser apontados como filiados. "Às vezes a gente preenche uma ficha e nem sabe o que é", disse Sandra Regina Militão da Silva, que vota no Itaim Paulista, no extremo leste.

Para o cientista político Celso Roma, a ausência de vínculo do PSDB com parte de seus próprios filiados está relacionada à origem da legenda. "É um partido de quadros, que concentra as decisões na cúpula e relega ao segundo plano a participação das bases", afirmou.

Alguns entrevistados atribuíram a terceiros a iniciativa de conectá-los ao PSDB. "Um amigo me filiou sem que eu soubesse", contou Emerson Saturnino.

Há relatos de filiações feitas por telefone ou internet, sem a assinatura do eleitor. Adélio Lopércio Barbosa disse que tentou se filiar ao PSDB em 2011, pela internet, mas desistiu ao saber que precisaria ir ao diretório para assinar uma ficha. Ficou surpreso ao saber que poderá votar nas prévias. "Não assinei nada, não sabia que tinham aceitado."

Daniela Lessa dos Santos, professora, conta ter se filiado por telefone: "Trabalho numa creche e um dos chefes vai se candidatar. Ligaram e perguntaram se queria". "Não assinei nada", diz.

O Estatuto do PSDB afirma que a filiação pode ser feita através de fichas ou "outros meios". O presidente municipal do partido, Julio Semeghini, disse que, nos últimos anos, apenas fichas de adesão assinadas têm sido aceitas pela legenda. A Justiça Eleitoral declarou que cabe ao partido controlar as filiações.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.