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Fim de feira no Recife teve tributo a Gonzagão

Evento reuniu mais de 120 mil pessoas em cinco dias com grandes surpresas

16 de dezembro de 2009 | 0h 00
Lauro Lisboa Garcia, RECIFE - O Estadao de S.Paulo

Se todo fim de feira fosse assim, estava pra lá de bom. A "xepa" de domingo no Recife teve frutos da melhor qualidade, oferecidos pela Feira Música Brasil. Diferentemente da euforia pop das outras quatro noites, o público foi acomodado em cadeiras de plástico em boa parte do Marco Zero, para ver e ouvir em silêncio a Orquestra Sinfônica do Recife. Grande parte do repertório era de autoria do homenageado da noite, o mestre Luiz Gonzaga, que nasceu no dia 13 de dezembro. Peças de Cyro Pereira e Sivuca em homenagem ao Rei do Baião abriram e fecharam, respectivamente, o concerto.

Das 80 mil pessoas que compareceram para ver a Nação Zumbi na noite de estreia, o público caiu, sintomaticamente, na última noite, com um décimo de presenças. Longe de ser negativo o resultado, era notória a diferença de idade e de comportamento. Logo depois da orquestra, o refinado Duo GisBranco, de duas pianistas, foi ouvido com o mesmo interesse e respeito, tocando temas de Baden Powell e Vinicius de Moraes, Ernesto Nazareth, Moacir Santos, Egberto Gismonti e Villa-Lobos. No fim, Chico César, amigo de Claudia Castelo Branco e Bianca Gismonti, fez participação marcante em três músicas, encerrando o recital com a bela Dúvida Cruel.

Em seguida, uma banda formada por integrantes do Cidadão Instigado e da Nação Zumbi (que fizeram dois dos melhores da Feira em noites anteriores) serviu de base para um desfile de novos expoentes homenagearem Luiz Gonzaga, no dia do aniversário de seu nascimento. Cada um interpretou duas canções, com exceção da cantora pernambucana Isaar, que fez uma versão cheia de graça de voz e piano com Vitor Araújo para Qui Nem Jiló. Merecia outra.

A noite começou com um número instrumental, com participação do sanfoneiro Camarão, que depois tocou com Siba. Em seguida vieram Júnio Barreto, Otto e Spok, Marina de la Riva e Vitor Araújo. Arnaldo Antunes, com Catatau, que produziu seu CD Iê Iê Iê, na guitarra, fez uma versão de Capim Novo, bem ao espírito de seu trabalho mais recente. Prosseguindo com Numa Sala de Reboco, foi o melhor da noite, que ainda teve Lirinha e Seu Jorge. No fim, tendo os frustrados pedidos para Asa Branca, Otto puxou todo mundo de volta cantando Olha pro Céu e repetindo a divertida versão de Pagode Russo.

O show foi gravado para virar DVD, pela Candeeiro Records. Segundo um representante da gravadora, se o áudio não ficar bom, um CD vai ser gravado em estúdio, nos moldes de Baião de Viramundo, lançado em 1999. De qualquer maneira, foi uma bonita festa de encerramento de uma semana cheia, com muitos shows bons de gente desconhecida do grande público, mas que acabou consagrada, além dos ídolos de multidões, como Pitty, Nação Zumbi, Marcelo D2, Sepultura e Fresno, que fizeram o Marco Zero estremecer.

Foram muitas surpresas para bandas como o Macaco Bong, que arrepiaram os fãs do Sepultura, o Cidadão Instigado, que fisgaram os fãs de Pitty (um fenômeno impressionante), Silvia Machete, que ganhou a simpatia dos emos seguidores do Fresno, Fabiana Cozza, Aurinha do Coco e Wilson das Neves, que conquistaram os gringos.

Não faltaram vozes contra, como empresários que acreditam ter pouco resultado a participação de artistas novos em festivais que reúnem grande público, supostamente interessado só nas grandes atrações, que na opinião de uns e outros nem precisariam estar ali. A visão de Carlos Tabakof, um dos diretores executivos da Feira, realizada pela Funarte, certamente é outra. "A ideia é bem básica, quando você monta um grande festival de música você tem de ter artistas âncoras que chamem público. E foi uma ideia consciente nossa, de colocar todo mundo no palco principal no Marco Zero. O Duo GisBranco está aí no palco onde o Sepultura tocou, a gente não fez nenhuma distinção."

O resultado da Feira, no geral, para ele foi acima das expectativas, não só pelas 120 mil pessoas que assistiram aos shows no Recife Antigo. Tanto expositores, artistas, palestrantes e representantes de diversas entidades foram unânimes em apontar a importância da realização dessa feira, não só como uma diversificada mostra de música em ótimas condições técnicas e qualidade artística, como pela oportunidade de intercâmbio entre vários segmentos que trabalham com música.

Foram muitos contatos e trocas de ideias, que certamente vão render frutos. Alguns resultados se reveleram logo de cara. O responsável pela programação do Lincoln Center, por exemplo, já se comprometeu em levar a Trombonada e a Orquestra Contemporânea de Olinda para tocarem em Nova York em 2010.

O repórter viajou a convite da organização do evento