Fim do conflito exige remédios amargos
Zbigniew Brzezinski: ex-assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos; para Brzezinski, não haverá trégua temporária nem acordo definitivo entre Israel e Hamas sem participação dos EUA
Zbigniew Brzezinski é o Henry Kissinger dos democratas americanos. Polonês de nascimento, ele ocupou o importante cargo de assessor para Segurança Nacional dos EUA durante o governo Jimmy Carter (1977 -1981), forjando a fama de falcão da política externa dos EUA. Nesta entrevista, ele analisa saídas para o conflito na Faixa de Gaza, comenta as opções da Índia frente a ameaças de grupos extremistas paquistaneses e diz como Barack Obama deve lidar com estes desafios.
Como presidente eleito, Barack Obama prepara-se para entrar na briga geopolítica enfrentando duas crises iminentes - a guerra entre Israel e o Hamas, e a tensão crescente entre Índia e Paquistão, após os ataques de Mumbai. Como obter um acordo de paz entre Israel e palestinos com um grupo armado hostil e negativista, como o Hamas?
Nunca haverá um acordo. A menos que se coloque na mesa um projeto amplo com soluções que sejam atraentes para a maioria dos israelenses e dos palestinos. Essas soluções devem estar num nítido contraste com as consequências desse ciclo implacável de violência que hoje presenciamos novamente em Gaza.
No momento, está muito claro que as duas partes no conflito nunca chegarão a um acordo por si mesmas. Os palestinos estão divididos e isso dificulta sua capacidade de negociar um acordo eficaz. Os israelenses relutam, isso porque alguns estão satisfeitos com a situação tal como ela se apresenta hoje, enquanto outros aproveitam esse impasse para, silenciosamente, expandir os assentamentos na Cisjordânia.
A única maneira de as coisas avançarem é a comunidade internacional, liderada pelos Estados Unidos, colocar na mesa um projeto de um eventual acordo, que deveria ter por base quatro pontos fundamentais: nenhum direito de retorno dos refugiados palestinos; esta é uma pílula que os palestinos vão precisar engolir, mas ela pode ser adocicada pelo reconhecimento internacional de seu sofrimento. Em segundo lugar, Jerusalém deve ser compartilhada de modo equitativo como a capital de dois Estados, Israel e Palestina. É verdade que esta é uma pílula amarga que israelenses terão de engolir. Mas sem isso, nenhuma paz será considerada justa.
Em terceiro lugar, um acordo territorial justo com base nas diretrizes de 1967, com algumas mudanças, permitindo a incorporação por Israel de algumas comunidades mais urbanizadas, além do que foi decidido em 1967. Em troca, os palestinos seriam recompensados com outro território, talvez na Galileia e na região de Neguev. Em quarto, um Estado palestino desmilitarizado e com a instalação de forças americanas ao longo do Rio Jordão, garantindo, assim, a segurança dos israelenses. Esse tipo de acordo teria o apoio da maioria dos israelenses e palestinos, e isolaria os extremistas de ambos os lados.
Khaled Meshal, líder do Hamas no exílio, diz com frequência que embora o Hamas não aceite a existência de Israel, aceitará uma "trégua de longo prazo". Ele já me disse isso numa entrevista feita há 20 anos. O Hamas tem de reconhecer a existência de Israel como condição para os EUA iniciarem uma conversa com o movimento, ou, pragmaticamente, pode essa trégua levar a algum lugar?
Duvido que uma trégua seja suficiente. Afinal, se deve existir um acordo de paz com base em acertos territoriais, não vejo como esses acertos podem ser condicionados, como ocorreria numa trégua. A ideia de uma trégua exclui alguns elementos de um amplo acordo. E ela apenas preservaria a situação atual, que é insustentável.
Durante o governo George W. Bush, as coisas não ficaram muito claras entre Israel e EUA. Se Barack Obama pretende promover seu "soft power" (poder brando) no mundo muçulmano e árabe para reconquistar o prestígio americano, ele não deveria deixar tudo mais esclarecido entre EUA e Israel?
Não seria uma maneira produtiva e criaria mais insegurança na comunidade judaica americana e em Israel, particularmente. O que é preciso é um engajamento sério e determinado no processo de paz. Isso vai fazer dos Estados Unidos um mediador construtivo e não apenas um participante passivo - como os Estados Unidos se tornaram durante o governo Bush.
A Índia declarou que tem o direito, como autodefesa, de atacar militantes em santuários no Paquistão, se o país vizinho não conseguir, ou não se dispuser, a assumir essa tarefa. Foi isso o que Bush fez. É o que Obama prometeu fazer. Por que a Índia não poderia agir da mesma maneira?
Teoricamente, do ponto de vista de um debatedor, o argumento é correto. No entanto, qualquer pessoa sensata tem de perguntar "o que os Estados Unidos ganharam" atacando esses santuários, além de inflamar a opinião pública paquistanesa?
Conseguimos destruir as redes islâmicas? Por que a Índia conseguiria fazer algo melhor? O verdadeiro risco de um ataque indiano contra o território paquistanês, que aliás poderia ser moral ou internacionalmente justificado, é que isso pode levar a uma guerra de grande porte entre duas potências nucleares. E uma guerra entre os dois países - mesmo se o Paquistão for derrotado - pode desencadear uma tremenda agitação na Índia, com sua grande população muçulmana cada vez mais ressentida e impaciente. Isso ameaçaria a integridade do Estado indiano. Portanto, sim, a Índia teria o direito de atacar os santuários. Mas e daí?
Em outras palavras, isso não é errado, mas estúpido.
Exatamente.
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