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Fortes emoções em região explosiva

12 de março de 2010 | 0h 00
Luiz Carlos Merten - O Estadao de S.Paulo

Filmes não servem apenas para divertir, são também para estimular a reflexão. Críticos e cinéfilos, de maneira geral, referendam a afirmação de Amos Gitai. Em agosto passado, o Centro Cultural Banco do Brasil apresentou uma mostra com os olhares cruzados de Gitai e Abbas Kiarostami sobre o Oriente Médio. Numa entrevista por telefone, o diretor israelense havia comentado seus filmes mais antigos, presentes na programação, e também os mais recentes - Disengagement e Carmel (que ia para o Festival de Toronto).

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Assista ao trailer do filme

Com o título de Aproximação, Disengagement estreia hoje na cidade. Gitai dirige dois mitos do cinema francês - Juliette Binoche faz a protagonista, Jeanne Moreau tem uma breve participação. Barbara Hendricks também está no elenco (e canta). Juliette e seu meio-irmão israelense reúnem-se na França para o funeral do pai. Confrontada com suas origens, ela resolve procurar a filha, que vive em Gaza. Juliette chega em meio à desocupação de um assentamento de ortodoxos pelo Exército de Israel, em 2005. O irmão é um dos oficiais que comandam a ação.

A morte do pai, a busca da filha e tudo isso em meio ao turbilhão da vida no Oriente Médio. Pode-se ver o filme realisticamente, mas também como metáfora sobre a região, uma das mais explosivas da Terra. O cinema de Gitai - como o de Kiarostami - discute as fronteiras. Elas não são apenas geográficas. São também as do cinema. Gitai acredita na força de conscientização do cinema. Sabe que ele, para ser político, precisa desenvolver uma estética que sustente essa proposta. "O cinema que me interessa é o que faz dialogarem estética e política."

Ao longo de sua carreira, Gitai fez grandes filmes como Kadosh, Kippur e Kedma. Pode ser mera coincidência que os títulos dos três comecem com K. Kadosh discute a sexualidade feminina no universo machista e autoritário dos judeus ortodoxos. Kippur revê experiências do diretor na guerra do "Perdão". E Kedma filma o momento em que os judeus sobreviventes do nazismo voltam à Palestina e sua chegada coincide com a expulsão dos árabes que se haviam estabelecido na região. Gitai sustentava uma posição polêmica - a reivindicação histórica dos sionistas por "Israel Eterno" não eliminava os direitos dos palestinos. Kedma termina com a maldição que o velho palestino lança sobre os velhos/novos ocupantes de sua terra, prometendo combater até o fim. O tema é, agora, a desocupação violenta e a busca dessa mulher por sua identidade. Gitai sabe que seu cinema desagrada a muita gente em Israel, não apenas pelos temas, mas pela forma. Aproximação é um de seus filmes mais fortes e pessoais. Gitai trata seus temas intelectual e emocionalmente. "Quis dar voz a todos os personagens, até aqueles cujas posições colidem com as minhas. A palavra final será do espectador."